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quarta-feira, 18 de abril de 2012

O Baú: Little Miss Sunshine

Filme: Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine), 2006
Direção: Jonathan Dayton e Valerie Faris
Elenco: Greg Kinear, Toni Collette, Steve Carell, Paul Dano, Abigail Breslin, Alan Arkin





Um dos maiores rótulos da cultura americana é o termo “loser”, “perdedor”. É designado a todos aqueles que não se encaixam no padrão da sociedade estabelecido pelos próprios americanos e mídia, os desajustados que agem da maneira que bem entendem. Esse processo de ser rotulado de loser é uma grande manifestação de subculturas nos Estados Unidos, que começa desde a infância nas escolas, com o problema do bullying, passa pela adolescência com a exclusão social e atinge a fase adulta com a rejeição e a falta de conquistas. É talvez o tema mais recorrente em filmes e séries por ser o problema mais recorrente do país; o deslocamento quando se é diferente do bando. Sendo assim, Little Miss Sunshine pega todas as possibilidades que fazem de uma pessoa um loser e as aplica em um único grupo numa jornada de auto-descobrimento.

A família Hoover entra numa Kombi amarela e parte com destino à Califórnia, onde a filha mais nova Olive (Abigail Breslin, de Zombieland, indicada ao Oscar pelo papel) vai participar de um concurso de beleza mirim. O pai, Richard (Greg Kinnear, de As Good as It Gets), é obcecado pela vitória, mesmo que ele próprio nunca a alcance. A mãe, Sheryl (Toni Collette, da série United States of Tara), é carinhosa, zeladora e preocupada, não só com os filhos, mas também com o irmão Frank (Steve Carell, da série The Office), um ex-acadêmico depressivo e suicida. O filho mais velho Dwayne (Paul Dano, de There Will Be Blood), é politizado, reservado e revoltado com o mundo, enquanto o avô Edwin (Alan Arkin, de Get Smart) enfrenta uma crise da terceira idade usando drogas e expondo qualquer coisa que lhe venha em mente. A viagem acaba tendo um propósito muito maior, quando a família atravessa ao mesmo tempo uma jornada de renovações, descobertas, conciliações e destinos novos.

O filme se foca no princípio de que o nível de “loser” que uma pessoa é se projeta ao seu redor. Cada indivíduo da família Hoover enfrenta um problema de aceitação e/ou de crise de identidade, onde tudo está falhando por serem o que são. E se não bastasse a retenção dos conflitos, estão indo em direção a um concurso onde tudo aparentemente é perfeito ao olhar – mesmo que esses concursos infantis de beleza sejam doentios. Os últimos momentos do filme, focados na competição, onde Olive é claramente uma completa desajustada naquele meio, servem também como uma crítica ao estilo de vida dos pais e crianças que se submetem à competição nada sadia que são esses concursos. O nível de competitividade que crianças que deveriam estar levando vidas normais adquirem, e a obsessão das mães, geralmente frustradas, que implantam na cabeça das filhas o quanto elas precisam ganhar aquilo e o quanto são melhores que as outras crianças faz uma alusão interessante ao estilo de vida que a própria família tem. Olive obviamente não pertence àquele mundo, pois não é linda, não é plastificada, não teve sua personalidade anulada e já consegue pensar por si mesma. Mas Richard, o pai frustrado, crava na cabeça da menina o quanto ser um loser é a pior coisa que pode acontecer na vida de alguém, e o quanto ela vai se dar mal na vida se não começar a ganhar as coisas. Por sua vez, Richard está afundando cada vez mais numa fase de decepções e rejeições profissionais, e exige que a família inteira tenha sucesso em suas empreitadas para se realizar através delas. Isso é mostrado em cenas onde Richard mostra desprezo em relação a Frank, por ter “desistido” da vida ao tentar se matar. Portanto, no universo obsessivo e plástico que é um concurso de beleza, a família Hoover, nada bonita e cheia de imperfeições, tem de entender uns aos outros e aceitar as próprias peculiaridades.

Little Miss Sunshine é um filme que funciona do começo ao fim. É cativante por ser divertido e satírico, e dizer algumas coisas que todos pensam mas só alguns falam. O roteiro foi escrito a partir de uma notícia de jornal, onde o roteirista leu que Arnold Schwarzenegger disse para um grupo de estudantes o quanto ele odiava perdedores. Sendo assim, é coerente enxergar Little Miss Sunshine como uma obra sobre como os losers estão por todos os lados, e que você provavelmente é um deles. E que isso não é necessariamente errado e repreensível, pois um loser pode ser nada mais que alguém que age da maneira que bem entende e mostra um grande dedo do meio para o quê a sociedade impõe como belo, como por exemplo, um concurso de beleza mirim.




sábado, 14 de abril de 2012

Shame

Filme: Shame, 2011
Direção: Steve McQueen
Elenco: Michael Fassbender, Carey Mulligan





O diretor italiano Bernardo Bertolucci é conceituado por suas verdadeiras odes sexuais. Filmes como Last Tango in Paris e o mais recente The Dreamers têm o sexo como chave que tranca o enredo, muitas vezes dando a impressão de que apostou a obra toda nessas cenas, se escondeu nelas e não aproveitou outras coisas interessantes e proveitosas do filme. Reconheço a qualidade da filmografia, mas essa, pelo menos, é a minha ideia sobre o diretor. E é quando o quase-novato diretor e roteirista Steve McQueen apresenta um filme sem grandes profundidades que Bertolucci aplica, mas com uma aposta tão grande no sexo e na sexualidade que torna inevitável uma comparação entre os dois cineastas em pequenas escalas. E o sexo em Shame está muito presente, mas não de fora agravante. O que é, pelo menos na minha apreciação cinematográfica, um ponto muito positivo.

Michael Fassbender (de X-Men: First Class) interpreta o executivo Brandon, viciado em sexo, que se masturba compulsivamente, vive rodeado de pornografia e está diariamente na presença de prostitutas e buscando novas parceiras. Quando sua irmã, a perturbada e infeliz Sissy (Carey Mulligan, de An Education), reaparece pedindo abrigo e companhia e tentando reconciliar a relação com o irmão, Brandon passa a notar o quanto está definhando dentro do próprio vício e despercebendo a infelicidade e ruína que sua vida pessoal, social e profissional está se tornando.

Shame é um filme pesado e carregado. Não é bonito, não é divertido. A intensidade que o foco no protagonista implica é o que conduz o filme, e o faz muito bem. Como é um filme que se trata de um personagem – não de um lugar, não de uma história – o processo de criação das situações em que ele se envolve é admirável e intercorrelacionado com o próprio universo da obra. Um filme fiel a ele mesmo e que não sai do próprio contorno. Uma hora isso pode ficar tedioso e até previsível, mas não de maneira negativa. Permite uma absorção maior do que aquela vida desgraçada tem a agregar, e o quanto se esconder atrás de relações sem significado e conexão emocional podem te levar ao desmoronamento.

Considero Carey Mulligan e Jennifer Lawrence as duas melhores jovens atrizes que apareceram nos últimos anos. A grande diferença entre elas é que Lawrence já encaminhou seu gigantesco talento ao cinema de blockbuster e grandes produções, enquanto Mulligan, que apareceu pela primeira vez em um papel protagonista no simples, porém fantástico An Education, continuou investindo principalmente no cinema independente e já protagonizou filmes de sucesso como Never Let Me Go e Drive. E em Shame, a jovem atriz encarna uma personagem intensa e sofrida, e ainda assim descontraída, e como já esperado, de maneira excepcional. Nos deixa sempre aguardando ansiosamente pelo próximo filme.

Não vá esperando que Shame seja um filme para seu entretenimento. Não é uma coisa leviana para passar o tempo. É um filme intenso para um público intenso, e com isso determinado, é um bom filme.




quarta-feira, 11 de abril de 2012

O Baú: Before Sunrise / Before Sunset

Filmes: Antes do Amanhecer (Before Sunrise) / Antes do Por-do-Sol (Before Sunset), 1995/2004
Direção: Richard Linklater
Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy





Gosto de analisar Before Sunrise e Before Sunset como uma obra conjunta. Mesmo que haja um intervalo de nove anos entre os dois filmes, assisti pela primeira vez com o segundo volume já lançado, e a impressão de que um complementa o outro ficou para sempre, assim como o meu amor pelos filmes, seus roteiros espetaculares e seus personagens relacionáveis.

A história é simples. Em Sunrise, Jesse e Celine (Ethan Hawke e Julie Delpy) se conhecem em um trem cruzando a Europa; ele americano, ela francesa. Começam a conversar e se dão muito bem logo de cara, decidindo descer juntos em Viena para se conhecerem melhor. O que deveria ser apenas algumas horas de conversa fiada acaba se tornando uma paixão intensa, e à medida que a noite vai caindo e a hora de cada um ir para o seu lado vai chegando, os dois jovens que ainda não sabem como lidar direito com a vida adulta passam a dividir seus pensamentos mais profundos e complicados, discutindo questões da vida, do amor, do universo e de si mesmos. Em Sunset, sem dar muitos spoilers, pegamos a trajetória de Jesse e Celine nove anos depois do término do primeiro filme, onde muita coisa mudou, e o dia passado juntos, agora em Paris, é feito de conversas divididas em tons mais maduros; eles são pessoas novas agora.

Sunrise e Sunset são daqueles filmes obrigatórios para quem é adorador do cinema. O diretor e roteirista Richard Linklater, sabendo que os dois protagonistas formavam uma grande porcentagem da razão dos filmes serem impecáveis e mundialmente renomados, incluiu Hawke e Delpy em decisões técnicas, permitindo que os dois atores construíssem seus personagens da maneira que quisessem, inclusive co-assinando o roteiro de Sunset. Os diálogos fazem qualquer um repensar diversos aspectos das próprias vidas; temas como crenças religiosas, acaso e destino, opiniões artísticas e políticas, relacionamentos passados e problemas familiares são discutidos entre os dois.

O crescimento e maturidade do ser humano é talvez o aspecto mais forte dos filmes: enquanto em Sunrise eles se questionavam e não sabiam direito o que pensar sobre as interrogações da vida, em Sunset, anos depois e com caminhos mais firmes e estáveis, eles têm certeza do que são e do que querem, e não mais perguntam, e sim afirmam. Nove anos significaram muito para os personagens, para os atores e para a história que começamos a acompanhar em 1995, prosseguimos em 2004 e que talvez encerremos em 2013 – Linklater, Hawke e Delpy já estão discutindo um possível terceiro volume, mantendo a tradição do intervalo de nove anos.

O cenário, chave do enredo, também muda não só geograficamente, mas também em conceito. Duas pessoas diferentes, jovens adultos com perspectivas, numa noite em Viena e se deparando com artistas de rua, bares noturnos e uma cidade dormindo. Depois, duas pessoas com suas opiniões e decisões tomadas, distinções colocadas à mesa, numa tarde em Paris, somente eles e mais ninguém para interferir no que é que esteja se formando – ou se reforçando. Enquanto caminham pelas cidades, o diretor faz uso de longos e bem guiados planos-sequência, característica marcante dos filmes. Enquanto eles conhecem e sentem Viena e Paris, o espectador os conhece e os sente também.

No fim das contas, nos deparamos com a difícil decisão de Jesse e Celine. A incógnita de Sunrise é desfeita com a chegada de Sunset, que por sua vez também é construído em cima de um ponto de interrogação. Afinal, estamos acompanhando três horas (cerca de 1h30 por filme) de duas vidas em tempo real, e para informações de background podemos apenas contar com o que os diálogos nos oferecem. Mas, tanto no primeiro quanto no segundo filme, os dois são obrigados a enfrentar a pior das decisões: largar ou não sua vida inteira e tudo o que você construiu para si para poder ficar com alguém... ainda mais com alguém que você apenas sente que conhece bem?

E se a delícia que é o relacionamento de duas pessoas cativantes e igualmente interessantes, as cenas icônicas, as atuações que vêm da alma, a direção se ligando ao roteiro a nível molecular e a expectativa que o romance nos proporciona não são motivos o suficiente para querer assistir a Before Sunrise e Before Sunset, a cena musical do segundo filme talvez fale por si só e faça a jornada valer a pena até para aqueles que não se convenceram. As histórias eternamente não concluídas de Jesse e Celine são ramificações inesquecíveis do cinema contemporâneo. Em suma, importantes para a compreensão do cinema de qualidade e de como se tornar um ícone cinematográfico dentro da própria simplicidade.




quarta-feira, 4 de abril de 2012

O Baú: Mary and Max

Filme: Mary and Max, 2009
Direção: Adam Elliot
Elenco de dublagem: Phillip Seymour Hoffman, Toni Collette, Barry Humphries, Eric Bana





O cinema de animação se deparou nos últimos anos com um aumento gradativo em qualidade. Os trabalhos, principalmente os do estúdio da Pixar, são realizados com uma semelhança inigualável com a realidade, poucas vezes tirando licenças poéticas de imagem para manipular um design diferenciado, que retrate uma visão distorcida do conceito já estabelecido de imagem. Portanto, é aceitável pensar que a animação que imite a realidade em visual fica por conta dos computadores, enquanto a animação ousada, que não tem receio em mexer com o design e corromper o “belo” e o “normal”, fica nas mãos da massa de modelar: a técnica do stop-motion. E enquanto animações famosas com essa técnica, como várias realizadas pelo diretor Tim Burton, ainda assim contornam os seus bonecos com alguma semelhança, Mary and Max não tem medo de arriscar, e cria um universo quase monocromático, com bonecos propositalmente “caseiros”, sem preocupação até em apagar as digitais dos escultores da massa. Pode não ser muito apreciado, mas é justamente o grosseiro da direção justaposto ao carisma e sensibilidade do enredo que fazem do filme um dos mais bonitos.

A trama é levemente baseada em uma história real – e eu não sei até onde foi verdade ou ficção, pois não fica claro no filme. Na Austrália, anos 70, a jovem Mary Daisy Dinkle (dublada aos 8 anos por Bethany Whitmore e na fase adulta por Toni Collette, da série United States of Tara), é uma garotinha solitária e com pais negligentes, que se acha feia e não se sente amada. No desespero por uma companhia, escolhe aleatoriamente na lista telefônica um endereço em Manhattan, e escreve implorando por uma amizade. Quem recebe a carta é Max Jerry Horowitz (voz de Phillip Seymour Hoffman, de Capote), um judeu na terceira idade que sofre de paranoia, ataques de ansiedade, que come compulsivamente e que também é um solitário. A amizade cresce, e Mary e Max encontram um no outro o amigo que nunca tiveram, e acabam se descobrindo no novo companheiro de maneiras que jamais imaginaram. Tudo através de cartas, cada um de um lado do mundo.

A utilização da cor é essencial para contar a história. São apenas duas que predominam e variam em tons: o mundo de Max é cinza, o de Mary é ocre. Quando Mary manda um pacote para Max, por exemplo, o embrulho é ocre porque veio de lá, e faz um contraste com o universo cinza dele. Esses elementos cromáticos alimentam ainda mais a peculiaridade de como a amizade dos dois é transmitida ao público; Mary é uma criança, e Max é um adulto sem vivência. Então ambos não entendem o mundo, uma por ingenuidade e inocência, o outro por alienação e problemas mentais. Com isso, ambos constantemente levantam questões e assuntos com indagações absurdas, que compõem o maior lado cômico do filme, revelando um roteiro escrito com muito humor e ainda assim, reflexão.

Os temas retratados são fortes e recorrentes, e apesar do humor e da ironia, aparecem mesclados com uma tristeza profunda em que os dois encaram os universos diferentes em que vivem, e a vida aparece pintada com obscuridade. Mary sofre bullying na escola, não é bem tratada pelos pais, e apesar de vivaz, é uma criança profundamente triste. Já Max [SPOILER: que é revelado com Síndrome de Asperger e autismo] é depressivo, ansioso, com ataques súbitos de raiva e que não consegue compreender o mundo e as pessoas, por isso se isola em seu próprio universo e procura conforto em comida excessiva.

A escolha do design indica o quanto o feio pode sim ser bonito. Os personagens e os cenários são quase maltratados, construídos sem muita pretensão (física, porque conceitual tem muita), e pessoas que não entenderem a linguagem do filme podem considerar mal feito. Mas ao mesmo tempo, conta uma história doce e sensível, com uma trilha sonora maravilhosa composta por Dale Cornelius, e sendo uma animação que se transforma em um cinema de perfeição e liberdade artística. E que, com certeza, diz muito sobre a vida e a sociedade, a escolha do isolamento e o não-entendimento e até desistência daquilo que te cerca.

Apesar da paleta simplória de cores, Mary and Max colore a vida de quem consegue enxergar além do visual terreno e apreciar esse magnífico conto sobre o poder da amizade e o conforto que o ser humano às vezes só encontra em outro alguém para chamar de amigo.




quarta-feira, 28 de março de 2012

O Baú: Woody Allen

Woody Allen, diretor, roteirista, ator e comediante.




FILMOGRAFIA SELECIONADA:
What’s Up, Tiger Lily? – 1966
Take the Money and Run – 1969
Bananas – 1971
Everything You Always Wanted to Know About Sex* (*But Were to Afraid to Ask) – 1972
Sleeper – 1973
Love and Death – 1975
Annie Hall – 1977
Interiors – 1978
Manhattan – 1979
Stardust Memories – 1980
A Midsummer Night’s Sex Comedy – 1982
Zelig – 1983
Broadway Danny Rose – 1984
The Purple Rose of Cairo – 1985
Hannah and Her Sisters – 1986
Radio Days – 1987
September – 1987
Another Woman 
– 1988
Crimes and Misdemeanors – 1989
Alice 
– 1990
Shadows and Fog – 1991
Husbands and Wives – 1992
Manhattan Murder Mystery – 1993
Bullets Over Broadway – 1994
Mighty Aphrodite – 1995
Everyone Says I Love You – 1996
Deconstructing Harry – 1997
Celebrity – 1998
Sweet and Lowdown – 1999
Small Time Crooks – 2000
The Curse of the Jade Scorpion – 2001
Hollywood Ending – 2002
Anything Else – 2003
Melinda and Melinda – 2004
Match Point – 2005
Scoop – 2006
Cassandra’s Dream – 2007
Vicky Cristina Barcelona – 2008
Whatever Works – 2009
You Will Meet a Tall Dark Stranger – 2010
Midnight in Paris – 2011

Woody Allen (ou Allan Stewart Konigsberg), nascido em 1935, é o mestre das palavras da história do cinema. Por mais que alguém possa não admirar seu trabalho, Allen fala tantas verdades sobre tudo em seus roteiros pontuados com habilidade natural, que é impossível não sair pelo menos identificado com alguma coisa de algum filme. Afinal, sua característica mais forte é a criação do personagem, onde ele próprio, sempre muito pensativo e confrontador, se coloca na construção daquela pessoa e transmite todas suas opiniões e perspectivas através de enormes diálogos. Levando seus filmes dessa maneira, Allen nos proporciona os melhores roteiros, ideias e personagens de todos os tempos há quase 50 anos, e é um dos autores de cinema que mais merecem reconhecimento e clamor por seu trabalho marcante.

A base e o background de Allen é a comédia. Pouquíssimas vezes algum de seus filmes deixa uma impressão pesada, porque sempre o maior dos problemas rotineiros de moradores de cidades grandes é retratado descontraidamente, olhando pelo lado positivo – ou mais leve – dele. É perceptível através de suas histórias que o próprio autor é uma pessoa conflitante e que não descansa a mente quando se trata de pensar sobre o mundo e tudo que há nele. Seus filmes já cobriram todos os capítulos dramáticos e cômicos e românticos que uma pessoa pode vivenciar, e que ele com certeza já vivenciou ou ao menos idealizou. Casos e problemas sempre situados em metrópoles, principalmente Manhattan, lugar que o diretor idolatra e expõe sempre, e geralmente num meio artístico, muitas vezes traçando um paralelo entre aquele enredo com aquela cidade e aquela arte.

Como roteirista, ele costuma levantar questões existenciais e geralmente se confronta com a realidade através do protagonista (onde várias vezes encarnou o personagem no filme), coisa que acaba fazendo o espectador se confrontar também. O uso da paranoia, do questionamento, da indecisão, da troca em relacionamentos, da coragem para largar tudo e mudar de vida, da epifania, das críticas à sociedade, da discussão de pontos de vista na arte, entre outros, são elementos que se repetem no decorrer de sua filmografia.

Sobre a correlação autor-personagem, há vários exemplos que comprovam que aquilo que estamos vendo é nada mais que o próprio Allen. Em Celebrity e Match Point, por exemplo, temos os personagens interpretados por Kenneth Branagh (de My Week with Marilyn) e Jonathan Rhys Meyers (de August Rush), respectivamente. Ambos se deixavam levar pelo amor e desejo, e no instante em que uma coisa nova surgia, eles não pensavam duas vezes e deixavam tudo o que haviam construído para trás. Isso reflete o escândalo que Allen viveu nos anos 90, ao deixar sua esposa Mia Farrow, até então musa de seus filmes, e ficar com a filha adotiva dela, que ele havia criado como pai desde sua infância. Outro exemplo é o das rodas de artistas boêmios em bares e restaurantes, como no início de Bullets Over Broadway e Melinda and Melinda: cineastas, escritores e músicos (assim como Allen, mestre no clarinete) que discutem sobre o que é o ponto de vista artístico, se ele se sobressai à vida real, e com quais linhas de pensamento devemos levar essas questões.


O romance, não como amor mas como relacionamento, é fortemente adicionado como base dos enredos de seus filmes. Parte disso se dá pelo protagonista irreverente, quase meio bobão, que se atrapalha com a vida e com o mundo que o rodeia. Mas outra grande parte disso é por conta das personagens femininas, mulheres idealizadas pelo diretor, através das quais diversas atrizes entregaram performances inesquecíveis. A utilização da atriz é tratada com cuidado por Allen; tanto cuidado que ele ganhou a reputação de lançá-las ao Oscar constantemente. Assim como nos anos 80 e 90 ele atuava nos papéis masculinos, na época ainda estava casado com Mia Farrow, e escalava a esposa nos papéis femininos, uma vez que ela também era assunto de enredos nos roteiros. E além de Farrow, Allen colecionou musas no decorrer da carreira: Diane Keaton, Dianne Wiest, Scarlett Johansson, apenas mulheres onde ele viu refletidas suas ideias e conceitos sobre complicação dentro da perfeição. E suas protagonistas são sempre muito complicadas, mas ainda assim, despertam desejo por serem construídas a partir do retrato pronto da mulher contemporânea.

De alguns anos para cá, Allen mudou o foco de seu cenário de Manhattan para a Europa, a fim de tratar a arte plástica em sua plenitude e local de origem. Filmes como Annie Hall, Manhattan e Hannah and her Sisters fazem do distrito nova-iorquino uma chave que desencadeia acontecimentos. A cidade faz parte daquilo, e essa característica se manteve ao mudar para Londres (em Scoop, Match Point e You Will Meet a Tall Dark Stranger), Barcelona (em Vicky Cristina Barcelona), Paris (em Midnight in Paris) e Roma em To Rome with Love, seu próximo filme que estreia em 2012. Enquanto em Manhattan os personagens buscam o moderno e arte contemporânea, na Europa Allen tentou resgatar o tradicionalismo da arte pelo bem da arte. Exemplos disso são em Whatever Works, onde a personagem de Evan Rachel Wood (de Across the Universe) muda da área rural dos Estados Unidos para NY para entrar em contato com a atualidade, e no retrato oposto de Midnight in Paris, onde o personagem de Owen Wilson (de Marley & Me) procura se encontrar como artista nos primórdios da boemia parisiense. Os filmes na América se focam nos relacionamentos, enquanto os filmes na Europa se focam no indivíduo.



Allen também provou o quanto sabe construir histórias de drama. Match Point é seu único filme levado puramente com tons de seriedade, sem nenhum alívio cômico nos diálogos. Afinal, em outros trabalhos, até a morte e a traição têm sua comicidade, segundo o autor. Ao mesmo tempo também em que Midnight in Paris é um filme com acontecimentos surreais de ficção, pode-se dizer que Allen está usando os anos 2000 para experimentar coisas novas, e há quem diga que ele perdeu a identidade com isso. Mas mesmo que os filmes mais recentes estejam saindo com caras novas, a qualidade do texto foi mantida a qualquer custo, e a direção tem sido elegante como sempre, repercutindo em um cinema de autoria magnífico.

E é assim que o clarinetista, que começou como comediante de stand-up para autor de peças, e finalmente para o cineasta que o mundo inteiro conhece e aprecia, leva sua própria vida através dos filmes que faz. A coragem de se expor pelo bem de uma boa história e a arte administrada com paixão e essência fazem de Woody Allen um dos melhores cineastas que a cinematografia já conheceu, intelectual e entendedor de tudo que é culto e artístico.

domingo, 25 de março de 2012

The Hunger Games

Filme: Jogos Vorazes (The Hunger Games), 2012
Direção: Gary Ross
Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson





Há cerca de três meses, li a trilogia The Hunger Games inteira e saboreei cada momento. Na metade do primeiro livro, já havia me tornado fã das tramas criadas pela autora Suzanne Collins, e estava completamente cativado pela incrível protagonista Katniss. Tendo ressaltado isso, analiso a adaptação para o cinema com dois olhos: como leitor da série original e como apenas espectador do filme.

Uma verdade universal é de que uma adaptação de livro jamais será 100% condizente ao original. Os diretores e roteiristas têm permissão de tirar licenças e modificar passagens do livro pelo bem do visual. Quando se está lendo, sua imaginação preenche as lacunas visuais, e um filme já faz isso por você e permanentemente. E The Hunger Games tirou várias licenças, mas para a sorte dos fãs, nenhuma que alterasse o curso da história. Porque a impressão foi a de que ler e assistir foi uma experiência só. A essência do livro estava captada minuciosamente, e do mesmo jeito que minha imaginação visualizou aquele universo, Gary Ross a colocou em filme. Apesar de algumas modificações e omissões, a vida de Katniss e dos pobres cidadãos de Panem estava lá, transportado nos mínimos detalhes.

A história é futurista, mas em um mundo que não avançou. Por motivos não especificados, o mundo como conhecemos acabou, e acompanhamos a rotina do que já foi a América do Norte, que se unificou em um só país chamado Panem. Controlado na rédea curta por uma Capital totalitária, houve há muitos anos uma rebelião dos 13 distritos que a cercam, que perderam a guerra e, até hoje, como forma de imposição de poder e lembrar a todos de que a Capital é quem manda, todos os anos um menino e uma menina entre 12 e 18 anos são escolhidos de cada distrito, enviados à Capital e jogados numa arena para disputarem os Jogos Vorazes, um evento televisionado onde devem lutar até a morte, e só um pode sair vitorioso. A jovem Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence, indicada ao Oscar por Winter’s Bone), do miserável distrito 12, se voluntaria no lugar da irmã a ser a escolhida – ou Tributo – da 74° edição dos Jogos. Junto com o jovem Peeta Mellark (Josh Hutcherson, de The Kids Are All Right), o menino sorteado, Katniss precisa aprender a canalizar tudo que sabe sobre caça e estratégias se quiser sobreviver na arena contra outros jovens que podem ou não estar na mesma situação de amedrontamento que ela.

A linha que o filme segue é a de “Se for para mostrar a desgraça, joguemos então até quem está assistindo também”. Combine a direção com a atuação de TODOS os atores, e o resultado foi de várias cenas que causam angústia. No distrito 12, onde a população vive na miséria e trabalha em minas para servir a Capital, ninguém é feliz. O estilo câmera-na-mão usado nesse tipo de situação atordoa, e prova que o filme é pensado como cinema e arte, não só como um blockbuster para arrecadar milhões. Na Capital, exatamente como descrito no livro, o luxo é à base da excentricidade. A moda é extravagante, os gostos são duvidosos, o sotaque é forçado, os pontos de vista são repulsivos. O nome do novo país serve justamente para indicar o conceito antigo de panem et circenses, ou “pão e circo”; os moradores da Capital amam os Jogos, e aguardam o ano todo para assistir a jovens se destruindo em barbárie. E assim como na moda e nas atitudes, os cenários da Capital são arquitetados em exuberância, uma “Roma antiga futurista”, servindo de antítese aos barracos e construções precárias dos distritos pobres. E finalmente chegando à caracterização dos Jogos, que só posso dizer que mais fiel impossível. Uniformes, armas, utensílios, a Cornucópia onde eles se reúnem, e a veracidade dos acontecimentos, assassinatos impiedosos (ainda que ocultos, no livro são muito mais viscerais), e a câmera atordoada sempre presente e afligindo. Faltou várias informações de background do enredo, algumas regras e padrões do “novo mundo”, mas que realmente eram tópicos sem espaço para serem contados no filme.

Empatado com a direção, a melhor coisa do filme foi, sem dúvida, o casting. O elenco todo encarnou os papéis com fidelidade, coisa que agrada os fãs mais que qualquer coisa. Jennifer Lawrence finalmente embarca em um papel que vai provar que ela não é só uma atriz excelente em filmes pequenos, mas que também atinge o mesmo nível em estrelato. Josh Hutcherson surpreende no papel de Peeta, e como o personagem Gale (um amigo de Katniss no distrito 12) só tem destaque nos próximos dois livros, ainda não deu para perceber se seu intérprete Liam Hemsworth está no nível dos outros protagonistas. Para completar, ninguém melhor que o caipira Woody Harrelson no papel do simplório, porém rude e bêbado mentor Haymitch. O elenco da Capital forma uma equipe coadjuvante perfeita: Elizabeth Banks fantástica no papel da excêntrica e bittersweet acompanhante dos Tributos Effie, Stanley Tucci como o falso simpático apresentador do programa Caesar, Wes Bentley como o determinado planejador da arena Seneca, e finalmente, o vilão da saga Donald Sutherland, interpretando o perverso e suave Presidente Snow. Até os demais atores mais novos, alguns até com rostos conhecidos (Alexander Ludwig e Isabelle Fuhrman, por exemplo), interpretando os Tributos de outros distritos, cumprem bem seus papéis. Um dos melhores elencos de um filme de produção grande dos últimos anos.

A adaptação do segundo livro, Catching Fire, já está confirmada com diretor e elenco assinados para retornar. E quem já leu reparou nas dicas introduzidas no filme que levam à segunda parte, que estreia em 2013. Aguardem boas classificações e resultados da saga inteira, pois vem aí uma franquia inesquecível.




quinta-feira, 22 de março de 2012

Perfect Sense

Filme: Sentidos do Amor (Perfect Sense), 2011
Direção: David Mackenzie
Elenco: Ewan McGregor, Eva Green





Perfect Sense é um caso raro de roteiro onde dois conceitos complementares para a existência física e espiritual são colocados juntos numa arena e conflitados um com o outro. No fim, quem vence: a emoção ou o sentido? Essa questão levantada se propaga em um cenário “apocalíptico” centrado no romance de duas pessoas que tentam definir o que é mais forte para cada um. E o resultado final é esplendoroso.

O mundo está enfrentando a pior epidemia (e a mais incomum, diga-se de passagem) que já existiu, tão única que ninguém consegue definir causa e origem. A “doença” se manifesta da seguinte maneira: a população mundial passa por um acesso de determinada emoção, que resulta na perda definitiva de um sentido. Por exemplo: a pessoa sofre um profundo momento de tristeza e arrependimento, e logo em seguida, perde o olfato. No meio do caos, um chef e uma epidemiologista, com seus trabalhos ligados ao surto tumultuoso, se conhecem e se apaixonam; Michael (Ewan McGregor, de Moulin Rouge) e Susan (Eva Green, de The Dreamers) desaprenderam a se relacionar por conta de traumas em romances passados, e aos poucos, enquanto vão enfrentando a perda dos sentidos, passam a apurar cada vez mais as noções de emoção e sentimento, e se encontram um no outro exacerbando a força principal, que resgata qualquer um de um momento de desespero: o amor.

Para a apreciação de Perfect Sense, é necessário saber enxergar o mundo com um olhar lírico. Quem espera ver um filme sobre o extermínio e decadência da raça humana, como em filmes como Blindness ou Contagion, vai se decepcionar. É um drama e, acima de tudo, um romance. A epidemia é um elemento-chave do enredo para estudar e explorar o comportamento humano voltado para o positivismo e controle quando tudo parece desmoronar. A cada evento, o casal é quase que forçado a repensar seus princípios sobre o amor, aproximação e intimidade, se entrelaçando e buscando apoio um no outro. Mas afinal, qual lado é maior? Quando chegar a fatídica hora em que todos os seus sentidos forem tirados de você, pode o amor ser tão forte e manter unidos dois indivíduos que só podem contar com a emoção de agora em diante? Basta preparar o coração para sentimentos intensos, assistir ao filme e descobrir (ou determinar) por si mesmo.

A direção de David Mackenzie lembra a de Mike Mills no filme Beginners, também estrelando Ewan McGregor. Montagens com imagens e arquivos footage aleatórios com cortes rápidos mostram a situação no resto do mundo, transpondo a desgraça a que alguns se entregaram, e ao controle e aceitação que outros tomaram. O dualismo ilustrado passa a ideia de que o ser humano não é necessariamente mostrado como na epidemia de Blindness, grosseiro, decadente, que vai se atirar na alimária no primeiro indício de fim do mundo, mas sim como uma raça com seus dois lados, e um deles, o otimista, quando se aguça a transcendência e se vive de sentimento, se prova totalmente capaz de gerar forças para a sobrevivência e adaptação. Basicamente, arme-se de amor que a natureza dá um jeito no resto.

O romance de Michael e Susan é dos mais bonitos. A química entre os atores, o sexo bem feito, as cenas de aceitação, tudo angustiante porque no fundo, sabemos da situação atual deles, e às vezes o pessimismo (ou até mesmo realismo) fala mais alto. Filme completamente aproveitável e emocionante, único dentro de seu próprio gênero.




quarta-feira, 21 de março de 2012

O Baú: A Single Man

Filme: Direito de Amar (A Single Man), 2009
Direção: Tom Ford
Elenco: Colin Firth, Julianne Moore, Nicholas Hoult, Matthew Goode





A cor é o aspecto fundamental da imagem. Um filme em preto-e-branco tem uma feição imagética que trabalha com o preenchimento, um com tons pastéis seleciona amenidade, um com cores fortes transmite energia, entre outros exemplos. Saber trabalhar com a cor é uma das armas mais poderosas no arsenal de um diretor, para um efeito até mesmo sensacionalista de ilustração apurada para o espectador. E Tom Ford, famoso estilista com um background mundialmente reconhecido no mundo da moda, estreia no cinema com essa obra sobre uma vida desbotada tentando adicionar algumas cores mais quentes na sua rotina.

O professor universitário George Falconer (Colin Firth, vencedor do Oscar por The King’s Speech) mal se lembra de como levantar da cama e aproveitar o dia após perder seu marido Jim (Matthew Goode, de Match Point), que morreu em um acidente de carro há oito meses. George finalmente decide buscar algum prazer por aí, e ver se consegue sentir alguma coisa nova em um determinado dia que ele decidiu ser o último de sua vida. Charlotte (Julianne Moore, de Crazy, Stupid, Love) e Kenny (Nicholas Hoult, da série Skins) fazem parte das pequenas aventuras e novas empreitadas que George sai à procura.

O tratamento de imagem é a chave que transforma A Single Man em um filme inesquecível. Combinando a direção com o enredo em uma linguagem extremamente criativa, percebemos através da palidez que o personagem George está morto por dentro. Triste e solitário, não consegue enxergar nada mais como algo vivo e intenso. Sua vida perdeu todas as cores e é agora uma tonalidade acinzentada interminável. No dia em que permite um tom novo para sua rotina, George sai para uma noitada com a melhor amiga, desperta uma paixão entusiasmante com um aluno, tem um encontro de pura tensão sexual com um garoto de programa e começa a reparar nos vizinhos sempre carinhosos e nos colegas de trabalho. A cada topada repentina, a tela se enche de brilho, e as cores da imagem se exaltam e se fortalecem, transformando a vida do personagem e a nossa percepção como espectadores de um buraco vazio sem esperanças a uma janela de possibilidades.

O uso dos tons vem com toda a certeza do conhecimento de moda do diretor. Fica físico, quase palpável, o quanto da cor é que se faz o mundo. Nota-se também não só o gosto pelo conceito, mas o reflexo que a história tem sobre Ford: é perceptível o quanto vários elementos do enredo vêm puramente das origens, princípios, opiniões e principalmente gostos do diretor, na preferência sexual, introdução de matérias que lhe causam excitação, medo da perda e até a utilização de cães como animais de estimação – os três cachorros do diretor aparecem no filme. Mesmo sendo adaptação de um livro de Christopher Isherwood, tudo ali é original. E uma coisa que me agrada muito é como o homossexualismo vai e vem casualmente. A história seria a mesma se o personagem fosse heterossexual e tivesse perdido uma esposa ao invés de um marido, coisa que faz do enredo um conto sobre a perda, não sobre um homem gay. Tudo conduzido levemente, sem ser forçoso e muito belo.

No fim das contas, A Single Man lida com a morte, o desejo de se entregar a ela e os prazeres finais que aparecem. Triste, mas da maneira mais emocionante de se entristecer, provocante, excitante e deliciosamente intenso. Escolhi escrever sobre essa surpresa cinematográfica por representar uma miscelânea de sensações e ser ao mesmo tempo um filme impecável em técnica. E que Tom Ford possa nos presentear com muito mais.




domingo, 18 de março de 2012

The Awakening

Filme: O Despertar (The Awakening), 2011
Direção: Nick Murphy
Elenco: Rebecca Hall, Dominic West, Imelda Staunton




O cinema de terror hollywoodiano desandou dentro do próprio gênero. Os filmes andam sendo construídos a partir da perturbação visual e do susto a qualquer custo, sendo que os critérios para a produção bem feita de um terror de qualidade são muito mais que isso. O clima do terror americano não está correto; os “mocumentários”, documentários forjados, entraram com tudo no mercado, e embora vez ou outra apareça um que realmente desperte sensações de aflição, como o primeiro Paranormal Activity e o pioneiro do estilo The Blair Witch Project, a maioria se defasa no terror, sem contar o aumento pelo gosto por envolver meios tecnológicos no enredo - espíritos que matam através de televisões, telefones. Assustam? Sim. Dão medo? Podemos dizer isso. Mas tem que ter o clima correto, para arrepiar sem deixar de ser arte. E The Awakening, uma produção inglesa, é um filme tão bem pensado nos critérios de sensação de filme de terror, que conduz a história no gênero... sem dar medo.

Florence Cathcart (Rebecca Hall, de Vicky Cristina Barcelona) é uma investigadora de charlatanismo dentro dos círculos sobrenaturais de Londres nos anos 20. Completamente cética, é também uma autora famosa que desacredita espíritos e fenômenos sobrenaturais. Quando é chamada para investigar um internato de meninos no campo onde um aluno foi encontrado morto, e supostamente assombrado pelo espírito de um garoto, é recebida pelo professor Robert (Dominic West, de 300) e governanta Maud (Imelda Staunton, indicada ao Oscar por Vera Drake), e vai aos poucos percebendo que talvez seja hora de deixar o ceticismo de lado e lidar com um caso sobrenatural legítimo.

O filme não é uma obra-prima, nem repadroniza o gênero, mas tudo nele funciona. Um internato sombrio, com uma arquitetura antiga acinzentada e repleta de pinturas grotescas, numa área rural afastada, com meninos melancólicos em seus uniformes e professores árduos, todos apavorados com o fantasma que os assombra. Para completar, a protagonista Florence está sempre vestida com roupas de frio, o vento parece gélido, o céu sempre nublado, tudo sempre remetendo à morbidez. Uma boa história de fantasmas tradicional, que lembra o assombroso clássico da literatura de terror The Turn of the Screw de Henry James, que no fim das contas, não causa a sensação de pavor, pois não aposta tudo em monstros e seres desfigurados, mas sabe lidar muito bem com tons que arrepiam, lembram o gótico, transmitem tristeza e a suavidade que uma história desse tipo pode apresentar. E claro, sempre com alguns momentos de tensão, pois disso também se faz o bom aproveitamento do gênero. O roteiro tem um desfecho interessante e saímos com a impressão de que tudo foi analisado com muito carinho na hora da execução.




quarta-feira, 14 de março de 2012

O Baú: The Hours

Filme: As Horas (The Hours), 2002
Direção: Stephen Daldry
Elenco: Nicole Kidman, Julianne Moore, Meryl Streep, Ed Harris





Há uma breve frase em The Hours que descreve o princípio do filme: “A vida inteira de uma mulher em um único dia. Apenas um dia. E nesse dia, sua vida inteira”.

Para entender melhor o que essa poesia em forma de cinema quer dizer, é preciso primeiro entender o tempo. Relativamente composto, cada um possui uma percepção diferente sobre seus dias, meses, anos. Mas primeiro, analisar melhor as menores quantidades, onde tão pouco e muito pode acontecer: as horas. Quantitativamente, nada mais que uma ideia preestabelecida que se arrasta até compreender outra noção de tempo. E ao acompanhar uma vida durante horas, se comparado aos meses ou até mesmo aos anos, recebemos pouca quantidade de informação que, se vista com olhos sensíveis, reflete cada aspecto que já foi e até mesmo alguns que ainda virão sobre aquela realidade. E The Hours é uma história sobre três dias, vividos por três mulheres em três tempos diferentes, e cruzando um paralelo entre as realidades a entender que, na verdade, estamos acompanhando uma única história.

Em 1923, assistimos à história real da autora inglesa Virginia Woolf, papel que deu o Oscar de Melhor Atriz à Nicole Kidman. Morando com seu marido no campo, Woolf luta contra a depressão e a psicose, em um dia em que vasculha os cantos mais escuros de sua mente para dar início a um de seus livros mais famosos, Mrs. Dalloway. Em 1951, Julianne Moore interpreta Laura Brown, uma mãe e esposa infeliz, alienada sobre seu papel na família, num dia em que tenta agradar o marido ao fazer um bolo, que busca refúgio e conforto lendo Mrs. Dalloway. E em 2001, Meryl Streep é Clarissa Vaughn, uma mulher conflitante em um dia em que prepara uma festa homenageando seu melhor amigo e ex-amante (Ed Harris), mas sente que algo está muito errado nisso tudo, exatamente como a personagem em Mrs. Dalloway.

Baseado no livro homônimo de Michael Cunningham, o roteiro transporta uma história à outra, traçando uma única linha que as liga com o livro em questão, mas em níveis distintos de existência. Basicamente, uma mulher escreve um livro, uma mulher lê o livro, e uma mulher é o livro. De qualquer maneira, suas vidas estão afetadas pelo mesmo problema: não saber qual o seu papel naquele dia, naquelas horas, que se arrastarão até se tornarem semanas, meses, anos, novos paralelos, novas vidas, e continuando assim sem saber o que está acontecendo de tão errado a ponto de causar uma depressão profunda, uma tristeza anestesiante e uma intuição aflitiva. A noção de que a melancolia é poética está presente em todos os aspectos do filme, parafraseando contos e poemas em momentos de dor e reflexão, fazendo do roteiro uma arte dentro da arte.

A profundidade de The Hours é complexa. Expor personagens de tal maneira a ponto de fazer um dia refletir um todo é mentalmente desgastante, quando se pensa nos tópicos conflitantes depois. As emoções são primitivas, e você percebe o quanto certos sentimentos negativos podem aparecer do nada, sem motivo aparente. Os elementos que os três arcos têm em comum transpõem não só a correlação entre eles, mas também a analogia com Mrs. Dalloway: problemas mentais e neuroses existenciais, indícios de feminismo e homossexualismo, busca por pretextos e motivações, e principalmente não querer viver a própria vida, então buscar viver a de outra pessoa e se realizar através dela, fundamentalmente não confrontando a própria tormenta.

Eu coloco The Hours como um dos melhores filmes dos anos 2000, e um dos meus preferidos. Engendrar a estrutura de uma narrativa e contar a história se utilizando disso é um trabalho circunstanciado. Com um enredo reflexivo, escrito poeticamente, atuações maravilhosas, trilha sonora clássica sempre presente e cenas tão intensas que agonizam, temos em mãos um filme merecedor de consagração. Um filme lindo.




domingo, 11 de março de 2012

Garden State

Filme: Hora de Voltar (Garden State), 2004
Direção: Zach Braff
Elenco: Zach Braff, Natalie Portman, Peter Sarsgaard





Zach Braff, famoso por protagonizar a série de comédia Scrubs, estreia como diretor e roteirista em um filme classificado como comédia dramática, com várias passagens cômicas no roteiro, mas que trata de uma história genuinamente triste. Até quando procura ser engraçado, há toda uma melancolia e morbidez por trás do riso. Filme que combina com o personagem e, como revelado em entrevistas, com o ator também.

Andrew (Braff) é um ator/garçom em Los Angeles que desaprendeu a sentir alguma coisa. Tomando medicamentos pesados desde a infância, receitados pelo próprio pai psiquiatra que queria impedir que o filho sofresse, Andrew leva uma vida anestesiada, sem prazeres e alegrias. Quando sua mãe morre tragicamente, o rapaz retorna à sua cidade natal em New Jersey, onde abandonou todas as suas raízes, familiares e amigos. Festas, drogas e reencontros não são o suficiente para despertar o êxtase, até conhecer Samantha (Natalie Portman, vencedora do Oscar por Black Swan), uma garota cheia de peculiaridades e com uma mente aberta e positiva para a vida.

Braff descreve o seu filme como uma história sobre a iniciativa para o despertar e retomar o controle de sua vida. O personagem esperou 26 anos para a vida começar, até perceber que ela já havia começado, e era aquilo, o presente, e a hora era aquela de tomar partido. São grandes crises existenciais que todos sofrem durante períodos de transição, da infância para a adolescência, depois para a maioridade onde os “problemas de gente grande” começam. Andrew descobre em Samantha e nas pequenas mudanças que vão ocorrendo ao seu redor na cidade que nunca é tarde para descobrir quem você é e se permitir a sentir os prazeres da vida. Mesmo que isso lhe tenha sido negado através de doses absurdas de remédios, traumas de infância e um relacionamento ruim com os pais. Não era o caso específico de Braff, mas não deixa de ser um filme biográfico em certas escalas, já que o ator diz ter passado por essa anestesia de sentimentos e depressão durante os seus 20 anos. E com tamanho retrato no roteiro próprio, direção, atuação, divulgação “cara-a-cara” por todo o país e até escolha da trilha sonora, podemos afirmar com certeza que Garden State é um filme que pertence a Zach Braff.

As passagens cômicas são todas sutis, com um humor nas entrelinhas que te abre um sorriso, mas não te leva a rir pela consciência de que, na verdade, tudo que acontece no filme é muito trágico e sofrido. O coração do espectador fica na mão quando Andrew relata algum dos inúmeros causos de tristeza que ocorreram em sua vida, sem derramar uma única lágrima, sem esboçar qualquer reação. Andrew representa o que está de errado, Samantha representa o que é necessário para consertar isso. O enredo não é dos mais originais, mas tudo é tão inteligente, inventivo e bem escrito, que nos concentramos mais no desenvolvimento do personagem, e não só da história em si.

Demorei muito para assistir a Garden State, e me arrependo profundamente, tamanha a fonte de inspiração que acabou sendo para mim. Zach Braff, por favor, continue escrevendo.




sábado, 10 de março de 2012

Carnage

Filme: Deus da Carnificina (Carnage), 2011
Direção: Roman Polanski
Elenco: Jodie Foster, John C. Reilly, Kate Winslet, Christoph Waltz





Penelope (Jodie Foster, de Silence of the Lambs) e Michael (John C. Reilly, de Chicago) são pais de um garoto que apanhou no parque de outra criança, o filho de Nancy (Kate Winslet, de The Reader) e Alan (Christoph Waltz, de Inglourious Basterds). Nancy e Alan vão até o apartamento de Penelope e Michael para chegarem juntos a uma conclusão sobre o que ser feito com os dois meninos. O que deveria ser uma conversa simples e objetiva acaba virando muito mais que isso.

A beleza de um filme em tempo real é a veracidade que isso adiciona à história. Com exceção do primeiro e último planos, acompanhamos durante 1h16 quatro adultos problemáticos, confinados a um único cenário, em o que começa como uma discussão sobre o que fazer para os filhos se acertarem e se torna um duelo de personalidades e opiniões diferentes, pontuados com um humor ocasional – que é, por sinal, divertidíssimo – e um mergulho em estados diferentes de latência de pontos de vista distintos. A começar pela adição de arquétipos típicos de um casamento em narrativa: aquele grito sufocado há anos, aquela palavra que você nunca soube falar exatamente, a esposa neurótica que acredita poder solucionar todos os problemas, o marido apaziguador, o homem sério e ocupado, a mulher frígida que não sente mais nada. E a sacada de Carnage é que apenas os arquétipos estão ali, não os personagens. Os quatro adultos se alternam quanto a se encaixar nas características citadas, mudam de lado durante o filme inteiro, formam alianças novas um com o outro, ora aceitam que o filho foi o culpado, ora jogam a culpa no filho do outro casal. Isso quando conseguem se focar novamente no tópico principal: a briga dos filhos. Por motivos como acomodação, sinceridade recém-adquirida e álcool, os dois casais partem para assuntos nunca antes discutidos e que atrapalhavam seus casamentos. As discussões e os problemas evoluem cada vez mais, revelando nada mais que quatro pessoas que não sabem resolver nada do que está errado em suas vidas.

O roteiro, adaptação da peça God of Carnage de Yasmina Reza, é escrito com maestria pelo encaixe das reviravoltas e surgimento de tópicos novos a serem explorados, com uma direção suave e plana de Polanski. Os protagonistas, vencedores de Oscar (e Reilly apenas indicado), são viscerais na exposição dos sentimentos mais primordiais que trouxeram para os papéis, sejam eles voltados para o drama ou humor.

Na conclusão do filme, saímos com a mensagem de que as pessoas precisam primeiro resolver seus problemas internamente, para só assim conseguirem aplicar qualquer tipo de solução que possam ter no dia-a-dia e na convivência com aqueles que as cercam. Carnage é engraçado, intenso e uma verdadeira dissertação sobre o comportamento humano.