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quarta-feira, 4 de abril de 2012

O Baú: Mary and Max

Filme: Mary and Max, 2009
Direção: Adam Elliot
Elenco de dublagem: Phillip Seymour Hoffman, Toni Collette, Barry Humphries, Eric Bana





O cinema de animação se deparou nos últimos anos com um aumento gradativo em qualidade. Os trabalhos, principalmente os do estúdio da Pixar, são realizados com uma semelhança inigualável com a realidade, poucas vezes tirando licenças poéticas de imagem para manipular um design diferenciado, que retrate uma visão distorcida do conceito já estabelecido de imagem. Portanto, é aceitável pensar que a animação que imite a realidade em visual fica por conta dos computadores, enquanto a animação ousada, que não tem receio em mexer com o design e corromper o “belo” e o “normal”, fica nas mãos da massa de modelar: a técnica do stop-motion. E enquanto animações famosas com essa técnica, como várias realizadas pelo diretor Tim Burton, ainda assim contornam os seus bonecos com alguma semelhança, Mary and Max não tem medo de arriscar, e cria um universo quase monocromático, com bonecos propositalmente “caseiros”, sem preocupação até em apagar as digitais dos escultores da massa. Pode não ser muito apreciado, mas é justamente o grosseiro da direção justaposto ao carisma e sensibilidade do enredo que fazem do filme um dos mais bonitos.

A trama é levemente baseada em uma história real – e eu não sei até onde foi verdade ou ficção, pois não fica claro no filme. Na Austrália, anos 70, a jovem Mary Daisy Dinkle (dublada aos 8 anos por Bethany Whitmore e na fase adulta por Toni Collette, da série United States of Tara), é uma garotinha solitária e com pais negligentes, que se acha feia e não se sente amada. No desespero por uma companhia, escolhe aleatoriamente na lista telefônica um endereço em Manhattan, e escreve implorando por uma amizade. Quem recebe a carta é Max Jerry Horowitz (voz de Phillip Seymour Hoffman, de Capote), um judeu na terceira idade que sofre de paranoia, ataques de ansiedade, que come compulsivamente e que também é um solitário. A amizade cresce, e Mary e Max encontram um no outro o amigo que nunca tiveram, e acabam se descobrindo no novo companheiro de maneiras que jamais imaginaram. Tudo através de cartas, cada um de um lado do mundo.

A utilização da cor é essencial para contar a história. São apenas duas que predominam e variam em tons: o mundo de Max é cinza, o de Mary é ocre. Quando Mary manda um pacote para Max, por exemplo, o embrulho é ocre porque veio de lá, e faz um contraste com o universo cinza dele. Esses elementos cromáticos alimentam ainda mais a peculiaridade de como a amizade dos dois é transmitida ao público; Mary é uma criança, e Max é um adulto sem vivência. Então ambos não entendem o mundo, uma por ingenuidade e inocência, o outro por alienação e problemas mentais. Com isso, ambos constantemente levantam questões e assuntos com indagações absurdas, que compõem o maior lado cômico do filme, revelando um roteiro escrito com muito humor e ainda assim, reflexão.

Os temas retratados são fortes e recorrentes, e apesar do humor e da ironia, aparecem mesclados com uma tristeza profunda em que os dois encaram os universos diferentes em que vivem, e a vida aparece pintada com obscuridade. Mary sofre bullying na escola, não é bem tratada pelos pais, e apesar de vivaz, é uma criança profundamente triste. Já Max [SPOILER: que é revelado com Síndrome de Asperger e autismo] é depressivo, ansioso, com ataques súbitos de raiva e que não consegue compreender o mundo e as pessoas, por isso se isola em seu próprio universo e procura conforto em comida excessiva.

A escolha do design indica o quanto o feio pode sim ser bonito. Os personagens e os cenários são quase maltratados, construídos sem muita pretensão (física, porque conceitual tem muita), e pessoas que não entenderem a linguagem do filme podem considerar mal feito. Mas ao mesmo tempo, conta uma história doce e sensível, com uma trilha sonora maravilhosa composta por Dale Cornelius, e sendo uma animação que se transforma em um cinema de perfeição e liberdade artística. E que, com certeza, diz muito sobre a vida e a sociedade, a escolha do isolamento e o não-entendimento e até desistência daquilo que te cerca.

Apesar da paleta simplória de cores, Mary and Max colore a vida de quem consegue enxergar além do visual terreno e apreciar esse magnífico conto sobre o poder da amizade e o conforto que o ser humano às vezes só encontra em outro alguém para chamar de amigo.




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