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quarta-feira, 18 de abril de 2012

O Baú: Little Miss Sunshine

Filme: Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine), 2006
Direção: Jonathan Dayton e Valerie Faris
Elenco: Greg Kinear, Toni Collette, Steve Carell, Paul Dano, Abigail Breslin, Alan Arkin





Um dos maiores rótulos da cultura americana é o termo “loser”, “perdedor”. É designado a todos aqueles que não se encaixam no padrão da sociedade estabelecido pelos próprios americanos e mídia, os desajustados que agem da maneira que bem entendem. Esse processo de ser rotulado de loser é uma grande manifestação de subculturas nos Estados Unidos, que começa desde a infância nas escolas, com o problema do bullying, passa pela adolescência com a exclusão social e atinge a fase adulta com a rejeição e a falta de conquistas. É talvez o tema mais recorrente em filmes e séries por ser o problema mais recorrente do país; o deslocamento quando se é diferente do bando. Sendo assim, Little Miss Sunshine pega todas as possibilidades que fazem de uma pessoa um loser e as aplica em um único grupo numa jornada de auto-descobrimento.

A família Hoover entra numa Kombi amarela e parte com destino à Califórnia, onde a filha mais nova Olive (Abigail Breslin, de Zombieland, indicada ao Oscar pelo papel) vai participar de um concurso de beleza mirim. O pai, Richard (Greg Kinnear, de As Good as It Gets), é obcecado pela vitória, mesmo que ele próprio nunca a alcance. A mãe, Sheryl (Toni Collette, da série United States of Tara), é carinhosa, zeladora e preocupada, não só com os filhos, mas também com o irmão Frank (Steve Carell, da série The Office), um ex-acadêmico depressivo e suicida. O filho mais velho Dwayne (Paul Dano, de There Will Be Blood), é politizado, reservado e revoltado com o mundo, enquanto o avô Edwin (Alan Arkin, de Get Smart) enfrenta uma crise da terceira idade usando drogas e expondo qualquer coisa que lhe venha em mente. A viagem acaba tendo um propósito muito maior, quando a família atravessa ao mesmo tempo uma jornada de renovações, descobertas, conciliações e destinos novos.

O filme se foca no princípio de que o nível de “loser” que uma pessoa é se projeta ao seu redor. Cada indivíduo da família Hoover enfrenta um problema de aceitação e/ou de crise de identidade, onde tudo está falhando por serem o que são. E se não bastasse a retenção dos conflitos, estão indo em direção a um concurso onde tudo aparentemente é perfeito ao olhar – mesmo que esses concursos infantis de beleza sejam doentios. Os últimos momentos do filme, focados na competição, onde Olive é claramente uma completa desajustada naquele meio, servem também como uma crítica ao estilo de vida dos pais e crianças que se submetem à competição nada sadia que são esses concursos. O nível de competitividade que crianças que deveriam estar levando vidas normais adquirem, e a obsessão das mães, geralmente frustradas, que implantam na cabeça das filhas o quanto elas precisam ganhar aquilo e o quanto são melhores que as outras crianças faz uma alusão interessante ao estilo de vida que a própria família tem. Olive obviamente não pertence àquele mundo, pois não é linda, não é plastificada, não teve sua personalidade anulada e já consegue pensar por si mesma. Mas Richard, o pai frustrado, crava na cabeça da menina o quanto ser um loser é a pior coisa que pode acontecer na vida de alguém, e o quanto ela vai se dar mal na vida se não começar a ganhar as coisas. Por sua vez, Richard está afundando cada vez mais numa fase de decepções e rejeições profissionais, e exige que a família inteira tenha sucesso em suas empreitadas para se realizar através delas. Isso é mostrado em cenas onde Richard mostra desprezo em relação a Frank, por ter “desistido” da vida ao tentar se matar. Portanto, no universo obsessivo e plástico que é um concurso de beleza, a família Hoover, nada bonita e cheia de imperfeições, tem de entender uns aos outros e aceitar as próprias peculiaridades.

Little Miss Sunshine é um filme que funciona do começo ao fim. É cativante por ser divertido e satírico, e dizer algumas coisas que todos pensam mas só alguns falam. O roteiro foi escrito a partir de uma notícia de jornal, onde o roteirista leu que Arnold Schwarzenegger disse para um grupo de estudantes o quanto ele odiava perdedores. Sendo assim, é coerente enxergar Little Miss Sunshine como uma obra sobre como os losers estão por todos os lados, e que você provavelmente é um deles. E que isso não é necessariamente errado e repreensível, pois um loser pode ser nada mais que alguém que age da maneira que bem entende e mostra um grande dedo do meio para o quê a sociedade impõe como belo, como por exemplo, um concurso de beleza mirim.




quarta-feira, 11 de abril de 2012

O Baú: Before Sunrise / Before Sunset

Filmes: Antes do Amanhecer (Before Sunrise) / Antes do Por-do-Sol (Before Sunset), 1995/2004
Direção: Richard Linklater
Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy





Gosto de analisar Before Sunrise e Before Sunset como uma obra conjunta. Mesmo que haja um intervalo de nove anos entre os dois filmes, assisti pela primeira vez com o segundo volume já lançado, e a impressão de que um complementa o outro ficou para sempre, assim como o meu amor pelos filmes, seus roteiros espetaculares e seus personagens relacionáveis.

A história é simples. Em Sunrise, Jesse e Celine (Ethan Hawke e Julie Delpy) se conhecem em um trem cruzando a Europa; ele americano, ela francesa. Começam a conversar e se dão muito bem logo de cara, decidindo descer juntos em Viena para se conhecerem melhor. O que deveria ser apenas algumas horas de conversa fiada acaba se tornando uma paixão intensa, e à medida que a noite vai caindo e a hora de cada um ir para o seu lado vai chegando, os dois jovens que ainda não sabem como lidar direito com a vida adulta passam a dividir seus pensamentos mais profundos e complicados, discutindo questões da vida, do amor, do universo e de si mesmos. Em Sunset, sem dar muitos spoilers, pegamos a trajetória de Jesse e Celine nove anos depois do término do primeiro filme, onde muita coisa mudou, e o dia passado juntos, agora em Paris, é feito de conversas divididas em tons mais maduros; eles são pessoas novas agora.

Sunrise e Sunset são daqueles filmes obrigatórios para quem é adorador do cinema. O diretor e roteirista Richard Linklater, sabendo que os dois protagonistas formavam uma grande porcentagem da razão dos filmes serem impecáveis e mundialmente renomados, incluiu Hawke e Delpy em decisões técnicas, permitindo que os dois atores construíssem seus personagens da maneira que quisessem, inclusive co-assinando o roteiro de Sunset. Os diálogos fazem qualquer um repensar diversos aspectos das próprias vidas; temas como crenças religiosas, acaso e destino, opiniões artísticas e políticas, relacionamentos passados e problemas familiares são discutidos entre os dois.

O crescimento e maturidade do ser humano é talvez o aspecto mais forte dos filmes: enquanto em Sunrise eles se questionavam e não sabiam direito o que pensar sobre as interrogações da vida, em Sunset, anos depois e com caminhos mais firmes e estáveis, eles têm certeza do que são e do que querem, e não mais perguntam, e sim afirmam. Nove anos significaram muito para os personagens, para os atores e para a história que começamos a acompanhar em 1995, prosseguimos em 2004 e que talvez encerremos em 2013 – Linklater, Hawke e Delpy já estão discutindo um possível terceiro volume, mantendo a tradição do intervalo de nove anos.

O cenário, chave do enredo, também muda não só geograficamente, mas também em conceito. Duas pessoas diferentes, jovens adultos com perspectivas, numa noite em Viena e se deparando com artistas de rua, bares noturnos e uma cidade dormindo. Depois, duas pessoas com suas opiniões e decisões tomadas, distinções colocadas à mesa, numa tarde em Paris, somente eles e mais ninguém para interferir no que é que esteja se formando – ou se reforçando. Enquanto caminham pelas cidades, o diretor faz uso de longos e bem guiados planos-sequência, característica marcante dos filmes. Enquanto eles conhecem e sentem Viena e Paris, o espectador os conhece e os sente também.

No fim das contas, nos deparamos com a difícil decisão de Jesse e Celine. A incógnita de Sunrise é desfeita com a chegada de Sunset, que por sua vez também é construído em cima de um ponto de interrogação. Afinal, estamos acompanhando três horas (cerca de 1h30 por filme) de duas vidas em tempo real, e para informações de background podemos apenas contar com o que os diálogos nos oferecem. Mas, tanto no primeiro quanto no segundo filme, os dois são obrigados a enfrentar a pior das decisões: largar ou não sua vida inteira e tudo o que você construiu para si para poder ficar com alguém... ainda mais com alguém que você apenas sente que conhece bem?

E se a delícia que é o relacionamento de duas pessoas cativantes e igualmente interessantes, as cenas icônicas, as atuações que vêm da alma, a direção se ligando ao roteiro a nível molecular e a expectativa que o romance nos proporciona não são motivos o suficiente para querer assistir a Before Sunrise e Before Sunset, a cena musical do segundo filme talvez fale por si só e faça a jornada valer a pena até para aqueles que não se convenceram. As histórias eternamente não concluídas de Jesse e Celine são ramificações inesquecíveis do cinema contemporâneo. Em suma, importantes para a compreensão do cinema de qualidade e de como se tornar um ícone cinematográfico dentro da própria simplicidade.




quarta-feira, 4 de abril de 2012

O Baú: Mary and Max

Filme: Mary and Max, 2009
Direção: Adam Elliot
Elenco de dublagem: Phillip Seymour Hoffman, Toni Collette, Barry Humphries, Eric Bana





O cinema de animação se deparou nos últimos anos com um aumento gradativo em qualidade. Os trabalhos, principalmente os do estúdio da Pixar, são realizados com uma semelhança inigualável com a realidade, poucas vezes tirando licenças poéticas de imagem para manipular um design diferenciado, que retrate uma visão distorcida do conceito já estabelecido de imagem. Portanto, é aceitável pensar que a animação que imite a realidade em visual fica por conta dos computadores, enquanto a animação ousada, que não tem receio em mexer com o design e corromper o “belo” e o “normal”, fica nas mãos da massa de modelar: a técnica do stop-motion. E enquanto animações famosas com essa técnica, como várias realizadas pelo diretor Tim Burton, ainda assim contornam os seus bonecos com alguma semelhança, Mary and Max não tem medo de arriscar, e cria um universo quase monocromático, com bonecos propositalmente “caseiros”, sem preocupação até em apagar as digitais dos escultores da massa. Pode não ser muito apreciado, mas é justamente o grosseiro da direção justaposto ao carisma e sensibilidade do enredo que fazem do filme um dos mais bonitos.

A trama é levemente baseada em uma história real – e eu não sei até onde foi verdade ou ficção, pois não fica claro no filme. Na Austrália, anos 70, a jovem Mary Daisy Dinkle (dublada aos 8 anos por Bethany Whitmore e na fase adulta por Toni Collette, da série United States of Tara), é uma garotinha solitária e com pais negligentes, que se acha feia e não se sente amada. No desespero por uma companhia, escolhe aleatoriamente na lista telefônica um endereço em Manhattan, e escreve implorando por uma amizade. Quem recebe a carta é Max Jerry Horowitz (voz de Phillip Seymour Hoffman, de Capote), um judeu na terceira idade que sofre de paranoia, ataques de ansiedade, que come compulsivamente e que também é um solitário. A amizade cresce, e Mary e Max encontram um no outro o amigo que nunca tiveram, e acabam se descobrindo no novo companheiro de maneiras que jamais imaginaram. Tudo através de cartas, cada um de um lado do mundo.

A utilização da cor é essencial para contar a história. São apenas duas que predominam e variam em tons: o mundo de Max é cinza, o de Mary é ocre. Quando Mary manda um pacote para Max, por exemplo, o embrulho é ocre porque veio de lá, e faz um contraste com o universo cinza dele. Esses elementos cromáticos alimentam ainda mais a peculiaridade de como a amizade dos dois é transmitida ao público; Mary é uma criança, e Max é um adulto sem vivência. Então ambos não entendem o mundo, uma por ingenuidade e inocência, o outro por alienação e problemas mentais. Com isso, ambos constantemente levantam questões e assuntos com indagações absurdas, que compõem o maior lado cômico do filme, revelando um roteiro escrito com muito humor e ainda assim, reflexão.

Os temas retratados são fortes e recorrentes, e apesar do humor e da ironia, aparecem mesclados com uma tristeza profunda em que os dois encaram os universos diferentes em que vivem, e a vida aparece pintada com obscuridade. Mary sofre bullying na escola, não é bem tratada pelos pais, e apesar de vivaz, é uma criança profundamente triste. Já Max [SPOILER: que é revelado com Síndrome de Asperger e autismo] é depressivo, ansioso, com ataques súbitos de raiva e que não consegue compreender o mundo e as pessoas, por isso se isola em seu próprio universo e procura conforto em comida excessiva.

A escolha do design indica o quanto o feio pode sim ser bonito. Os personagens e os cenários são quase maltratados, construídos sem muita pretensão (física, porque conceitual tem muita), e pessoas que não entenderem a linguagem do filme podem considerar mal feito. Mas ao mesmo tempo, conta uma história doce e sensível, com uma trilha sonora maravilhosa composta por Dale Cornelius, e sendo uma animação que se transforma em um cinema de perfeição e liberdade artística. E que, com certeza, diz muito sobre a vida e a sociedade, a escolha do isolamento e o não-entendimento e até desistência daquilo que te cerca.

Apesar da paleta simplória de cores, Mary and Max colore a vida de quem consegue enxergar além do visual terreno e apreciar esse magnífico conto sobre o poder da amizade e o conforto que o ser humano às vezes só encontra em outro alguém para chamar de amigo.




quarta-feira, 28 de março de 2012

O Baú: Woody Allen

Woody Allen, diretor, roteirista, ator e comediante.




FILMOGRAFIA SELECIONADA:
What’s Up, Tiger Lily? – 1966
Take the Money and Run – 1969
Bananas – 1971
Everything You Always Wanted to Know About Sex* (*But Were to Afraid to Ask) – 1972
Sleeper – 1973
Love and Death – 1975
Annie Hall – 1977
Interiors – 1978
Manhattan – 1979
Stardust Memories – 1980
A Midsummer Night’s Sex Comedy – 1982
Zelig – 1983
Broadway Danny Rose – 1984
The Purple Rose of Cairo – 1985
Hannah and Her Sisters – 1986
Radio Days – 1987
September – 1987
Another Woman 
– 1988
Crimes and Misdemeanors – 1989
Alice 
– 1990
Shadows and Fog – 1991
Husbands and Wives – 1992
Manhattan Murder Mystery – 1993
Bullets Over Broadway – 1994
Mighty Aphrodite – 1995
Everyone Says I Love You – 1996
Deconstructing Harry – 1997
Celebrity – 1998
Sweet and Lowdown – 1999
Small Time Crooks – 2000
The Curse of the Jade Scorpion – 2001
Hollywood Ending – 2002
Anything Else – 2003
Melinda and Melinda – 2004
Match Point – 2005
Scoop – 2006
Cassandra’s Dream – 2007
Vicky Cristina Barcelona – 2008
Whatever Works – 2009
You Will Meet a Tall Dark Stranger – 2010
Midnight in Paris – 2011

Woody Allen (ou Allan Stewart Konigsberg), nascido em 1935, é o mestre das palavras da história do cinema. Por mais que alguém possa não admirar seu trabalho, Allen fala tantas verdades sobre tudo em seus roteiros pontuados com habilidade natural, que é impossível não sair pelo menos identificado com alguma coisa de algum filme. Afinal, sua característica mais forte é a criação do personagem, onde ele próprio, sempre muito pensativo e confrontador, se coloca na construção daquela pessoa e transmite todas suas opiniões e perspectivas através de enormes diálogos. Levando seus filmes dessa maneira, Allen nos proporciona os melhores roteiros, ideias e personagens de todos os tempos há quase 50 anos, e é um dos autores de cinema que mais merecem reconhecimento e clamor por seu trabalho marcante.

A base e o background de Allen é a comédia. Pouquíssimas vezes algum de seus filmes deixa uma impressão pesada, porque sempre o maior dos problemas rotineiros de moradores de cidades grandes é retratado descontraidamente, olhando pelo lado positivo – ou mais leve – dele. É perceptível através de suas histórias que o próprio autor é uma pessoa conflitante e que não descansa a mente quando se trata de pensar sobre o mundo e tudo que há nele. Seus filmes já cobriram todos os capítulos dramáticos e cômicos e românticos que uma pessoa pode vivenciar, e que ele com certeza já vivenciou ou ao menos idealizou. Casos e problemas sempre situados em metrópoles, principalmente Manhattan, lugar que o diretor idolatra e expõe sempre, e geralmente num meio artístico, muitas vezes traçando um paralelo entre aquele enredo com aquela cidade e aquela arte.

Como roteirista, ele costuma levantar questões existenciais e geralmente se confronta com a realidade através do protagonista (onde várias vezes encarnou o personagem no filme), coisa que acaba fazendo o espectador se confrontar também. O uso da paranoia, do questionamento, da indecisão, da troca em relacionamentos, da coragem para largar tudo e mudar de vida, da epifania, das críticas à sociedade, da discussão de pontos de vista na arte, entre outros, são elementos que se repetem no decorrer de sua filmografia.

Sobre a correlação autor-personagem, há vários exemplos que comprovam que aquilo que estamos vendo é nada mais que o próprio Allen. Em Celebrity e Match Point, por exemplo, temos os personagens interpretados por Kenneth Branagh (de My Week with Marilyn) e Jonathan Rhys Meyers (de August Rush), respectivamente. Ambos se deixavam levar pelo amor e desejo, e no instante em que uma coisa nova surgia, eles não pensavam duas vezes e deixavam tudo o que haviam construído para trás. Isso reflete o escândalo que Allen viveu nos anos 90, ao deixar sua esposa Mia Farrow, até então musa de seus filmes, e ficar com a filha adotiva dela, que ele havia criado como pai desde sua infância. Outro exemplo é o das rodas de artistas boêmios em bares e restaurantes, como no início de Bullets Over Broadway e Melinda and Melinda: cineastas, escritores e músicos (assim como Allen, mestre no clarinete) que discutem sobre o que é o ponto de vista artístico, se ele se sobressai à vida real, e com quais linhas de pensamento devemos levar essas questões.


O romance, não como amor mas como relacionamento, é fortemente adicionado como base dos enredos de seus filmes. Parte disso se dá pelo protagonista irreverente, quase meio bobão, que se atrapalha com a vida e com o mundo que o rodeia. Mas outra grande parte disso é por conta das personagens femininas, mulheres idealizadas pelo diretor, através das quais diversas atrizes entregaram performances inesquecíveis. A utilização da atriz é tratada com cuidado por Allen; tanto cuidado que ele ganhou a reputação de lançá-las ao Oscar constantemente. Assim como nos anos 80 e 90 ele atuava nos papéis masculinos, na época ainda estava casado com Mia Farrow, e escalava a esposa nos papéis femininos, uma vez que ela também era assunto de enredos nos roteiros. E além de Farrow, Allen colecionou musas no decorrer da carreira: Diane Keaton, Dianne Wiest, Scarlett Johansson, apenas mulheres onde ele viu refletidas suas ideias e conceitos sobre complicação dentro da perfeição. E suas protagonistas são sempre muito complicadas, mas ainda assim, despertam desejo por serem construídas a partir do retrato pronto da mulher contemporânea.

De alguns anos para cá, Allen mudou o foco de seu cenário de Manhattan para a Europa, a fim de tratar a arte plástica em sua plenitude e local de origem. Filmes como Annie Hall, Manhattan e Hannah and her Sisters fazem do distrito nova-iorquino uma chave que desencadeia acontecimentos. A cidade faz parte daquilo, e essa característica se manteve ao mudar para Londres (em Scoop, Match Point e You Will Meet a Tall Dark Stranger), Barcelona (em Vicky Cristina Barcelona), Paris (em Midnight in Paris) e Roma em To Rome with Love, seu próximo filme que estreia em 2012. Enquanto em Manhattan os personagens buscam o moderno e arte contemporânea, na Europa Allen tentou resgatar o tradicionalismo da arte pelo bem da arte. Exemplos disso são em Whatever Works, onde a personagem de Evan Rachel Wood (de Across the Universe) muda da área rural dos Estados Unidos para NY para entrar em contato com a atualidade, e no retrato oposto de Midnight in Paris, onde o personagem de Owen Wilson (de Marley & Me) procura se encontrar como artista nos primórdios da boemia parisiense. Os filmes na América se focam nos relacionamentos, enquanto os filmes na Europa se focam no indivíduo.



Allen também provou o quanto sabe construir histórias de drama. Match Point é seu único filme levado puramente com tons de seriedade, sem nenhum alívio cômico nos diálogos. Afinal, em outros trabalhos, até a morte e a traição têm sua comicidade, segundo o autor. Ao mesmo tempo também em que Midnight in Paris é um filme com acontecimentos surreais de ficção, pode-se dizer que Allen está usando os anos 2000 para experimentar coisas novas, e há quem diga que ele perdeu a identidade com isso. Mas mesmo que os filmes mais recentes estejam saindo com caras novas, a qualidade do texto foi mantida a qualquer custo, e a direção tem sido elegante como sempre, repercutindo em um cinema de autoria magnífico.

E é assim que o clarinetista, que começou como comediante de stand-up para autor de peças, e finalmente para o cineasta que o mundo inteiro conhece e aprecia, leva sua própria vida através dos filmes que faz. A coragem de se expor pelo bem de uma boa história e a arte administrada com paixão e essência fazem de Woody Allen um dos melhores cineastas que a cinematografia já conheceu, intelectual e entendedor de tudo que é culto e artístico.

quarta-feira, 21 de março de 2012

O Baú: A Single Man

Filme: Direito de Amar (A Single Man), 2009
Direção: Tom Ford
Elenco: Colin Firth, Julianne Moore, Nicholas Hoult, Matthew Goode





A cor é o aspecto fundamental da imagem. Um filme em preto-e-branco tem uma feição imagética que trabalha com o preenchimento, um com tons pastéis seleciona amenidade, um com cores fortes transmite energia, entre outros exemplos. Saber trabalhar com a cor é uma das armas mais poderosas no arsenal de um diretor, para um efeito até mesmo sensacionalista de ilustração apurada para o espectador. E Tom Ford, famoso estilista com um background mundialmente reconhecido no mundo da moda, estreia no cinema com essa obra sobre uma vida desbotada tentando adicionar algumas cores mais quentes na sua rotina.

O professor universitário George Falconer (Colin Firth, vencedor do Oscar por The King’s Speech) mal se lembra de como levantar da cama e aproveitar o dia após perder seu marido Jim (Matthew Goode, de Match Point), que morreu em um acidente de carro há oito meses. George finalmente decide buscar algum prazer por aí, e ver se consegue sentir alguma coisa nova em um determinado dia que ele decidiu ser o último de sua vida. Charlotte (Julianne Moore, de Crazy, Stupid, Love) e Kenny (Nicholas Hoult, da série Skins) fazem parte das pequenas aventuras e novas empreitadas que George sai à procura.

O tratamento de imagem é a chave que transforma A Single Man em um filme inesquecível. Combinando a direção com o enredo em uma linguagem extremamente criativa, percebemos através da palidez que o personagem George está morto por dentro. Triste e solitário, não consegue enxergar nada mais como algo vivo e intenso. Sua vida perdeu todas as cores e é agora uma tonalidade acinzentada interminável. No dia em que permite um tom novo para sua rotina, George sai para uma noitada com a melhor amiga, desperta uma paixão entusiasmante com um aluno, tem um encontro de pura tensão sexual com um garoto de programa e começa a reparar nos vizinhos sempre carinhosos e nos colegas de trabalho. A cada topada repentina, a tela se enche de brilho, e as cores da imagem se exaltam e se fortalecem, transformando a vida do personagem e a nossa percepção como espectadores de um buraco vazio sem esperanças a uma janela de possibilidades.

O uso dos tons vem com toda a certeza do conhecimento de moda do diretor. Fica físico, quase palpável, o quanto da cor é que se faz o mundo. Nota-se também não só o gosto pelo conceito, mas o reflexo que a história tem sobre Ford: é perceptível o quanto vários elementos do enredo vêm puramente das origens, princípios, opiniões e principalmente gostos do diretor, na preferência sexual, introdução de matérias que lhe causam excitação, medo da perda e até a utilização de cães como animais de estimação – os três cachorros do diretor aparecem no filme. Mesmo sendo adaptação de um livro de Christopher Isherwood, tudo ali é original. E uma coisa que me agrada muito é como o homossexualismo vai e vem casualmente. A história seria a mesma se o personagem fosse heterossexual e tivesse perdido uma esposa ao invés de um marido, coisa que faz do enredo um conto sobre a perda, não sobre um homem gay. Tudo conduzido levemente, sem ser forçoso e muito belo.

No fim das contas, A Single Man lida com a morte, o desejo de se entregar a ela e os prazeres finais que aparecem. Triste, mas da maneira mais emocionante de se entristecer, provocante, excitante e deliciosamente intenso. Escolhi escrever sobre essa surpresa cinematográfica por representar uma miscelânea de sensações e ser ao mesmo tempo um filme impecável em técnica. E que Tom Ford possa nos presentear com muito mais.




quarta-feira, 14 de março de 2012

O Baú: The Hours

Filme: As Horas (The Hours), 2002
Direção: Stephen Daldry
Elenco: Nicole Kidman, Julianne Moore, Meryl Streep, Ed Harris





Há uma breve frase em The Hours que descreve o princípio do filme: “A vida inteira de uma mulher em um único dia. Apenas um dia. E nesse dia, sua vida inteira”.

Para entender melhor o que essa poesia em forma de cinema quer dizer, é preciso primeiro entender o tempo. Relativamente composto, cada um possui uma percepção diferente sobre seus dias, meses, anos. Mas primeiro, analisar melhor as menores quantidades, onde tão pouco e muito pode acontecer: as horas. Quantitativamente, nada mais que uma ideia preestabelecida que se arrasta até compreender outra noção de tempo. E ao acompanhar uma vida durante horas, se comparado aos meses ou até mesmo aos anos, recebemos pouca quantidade de informação que, se vista com olhos sensíveis, reflete cada aspecto que já foi e até mesmo alguns que ainda virão sobre aquela realidade. E The Hours é uma história sobre três dias, vividos por três mulheres em três tempos diferentes, e cruzando um paralelo entre as realidades a entender que, na verdade, estamos acompanhando uma única história.

Em 1923, assistimos à história real da autora inglesa Virginia Woolf, papel que deu o Oscar de Melhor Atriz à Nicole Kidman. Morando com seu marido no campo, Woolf luta contra a depressão e a psicose, em um dia em que vasculha os cantos mais escuros de sua mente para dar início a um de seus livros mais famosos, Mrs. Dalloway. Em 1951, Julianne Moore interpreta Laura Brown, uma mãe e esposa infeliz, alienada sobre seu papel na família, num dia em que tenta agradar o marido ao fazer um bolo, que busca refúgio e conforto lendo Mrs. Dalloway. E em 2001, Meryl Streep é Clarissa Vaughn, uma mulher conflitante em um dia em que prepara uma festa homenageando seu melhor amigo e ex-amante (Ed Harris), mas sente que algo está muito errado nisso tudo, exatamente como a personagem em Mrs. Dalloway.

Baseado no livro homônimo de Michael Cunningham, o roteiro transporta uma história à outra, traçando uma única linha que as liga com o livro em questão, mas em níveis distintos de existência. Basicamente, uma mulher escreve um livro, uma mulher lê o livro, e uma mulher é o livro. De qualquer maneira, suas vidas estão afetadas pelo mesmo problema: não saber qual o seu papel naquele dia, naquelas horas, que se arrastarão até se tornarem semanas, meses, anos, novos paralelos, novas vidas, e continuando assim sem saber o que está acontecendo de tão errado a ponto de causar uma depressão profunda, uma tristeza anestesiante e uma intuição aflitiva. A noção de que a melancolia é poética está presente em todos os aspectos do filme, parafraseando contos e poemas em momentos de dor e reflexão, fazendo do roteiro uma arte dentro da arte.

A profundidade de The Hours é complexa. Expor personagens de tal maneira a ponto de fazer um dia refletir um todo é mentalmente desgastante, quando se pensa nos tópicos conflitantes depois. As emoções são primitivas, e você percebe o quanto certos sentimentos negativos podem aparecer do nada, sem motivo aparente. Os elementos que os três arcos têm em comum transpõem não só a correlação entre eles, mas também a analogia com Mrs. Dalloway: problemas mentais e neuroses existenciais, indícios de feminismo e homossexualismo, busca por pretextos e motivações, e principalmente não querer viver a própria vida, então buscar viver a de outra pessoa e se realizar através dela, fundamentalmente não confrontando a própria tormenta.

Eu coloco The Hours como um dos melhores filmes dos anos 2000, e um dos meus preferidos. Engendrar a estrutura de uma narrativa e contar a história se utilizando disso é um trabalho circunstanciado. Com um enredo reflexivo, escrito poeticamente, atuações maravilhosas, trilha sonora clássica sempre presente e cenas tão intensas que agonizam, temos em mãos um filme merecedor de consagração. Um filme lindo.




quarta-feira, 7 de março de 2012

O Baú: 500 Days of Summer

Filme: 500 Dias Com Ela (500 Days of Summer), 2009
Direção: Marc Webb
Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Zooey Deschanel





O estreante diretor Marc Webb inovou o gênero das “dramédias” românticas com 500 Days of Summer, pois o filme se tornou contemporaneamente a última palavra em o que é se apaixonar. Trazendo consigo um visual inventivo e sendo considerado o Annie Hall (filme de Woody Allen) dessa geração, acompanhamos uma história que crava no peito a difícil realidade que o romantismo tradicional proporciona.

Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt, de 50/50) é um escritor de cartões comemorativos que revisita os 500 dias em que Summer Finn (Zooey Deschanel, da série New Girl) fez parte de sua vida. A empolgação do início, as conversas na cama, as brincadeiras e a identificação nas opiniões do outro, até chegar à desilusão, de quando a realidade bate na porta e te aponta o que realmente estava acontecendo ali. Por fim, o apoio nas coisas boas que te restaram na vida parece crucial para sua sobrevivência, mas a idéia de que aquela outra pessoa ainda está por aí, fazendo parte do universo em que você vive, traz aquele aperto e insegurança de volta.

Uma coisa quase universal sobre 500 Days of Summer é que todos que já se relacionaram com outra pessoa pelo menos uma vez na vida vão se sentir na pele de um dos dois protagonistas em algum momento do filme. Tom, o pobre desiludido, que se apaixonou e sentiu a felicidade imensa e a sensação de eternidade, que preferiu acreditar nas coisas boas do amor e se esqueceu que a outra pessoa pode não te enxergar da mesma maneira, ou Summer, a livre e inconstante, que sabe o que quer e sabe que, quando não é a hora, o melhor a se fazer é ser honesta quanto aos sentimentos e evitar repressões e enganações. Esses são os aspectos que definem os dois lados de um namoro que, por mais divertido que possa parecer, não era para acontecer. A idéia da felicidade havia sido projetada pelo lado que queria fazer dar certo, enquanto o outro lado, aquele que percebeu que tudo é uma questão de momento, conseguiu se esquivar colocando a si mesmo em primeiro lugar.

Uma comédia romântica passa por várias etapas: o casal se conhece, um dos dois (ou ambos) tem alguma relutância, se entregam ao amor, vivem uma alternância de períodos felizes e tristes, um término, uma epifania, e chegam ao desfecho, seja juntos ou separados. 500 Days of Summer encaminha Tom e Summer por todas essas etapas, e adiciona várias outras pelo caminho. É tudo muito comum e relacionável, os namoros de todos nós representados em quadro. E, apesar do sofrimento, a mensagem do filme é otimista: não foi agora, mas pode ser depois. É um roteiro muito especial e único, transformado em uma direção que transforma tudo numa ilustração de um livro, um visual engenhoso para despertar maior empatia; como por exemplo, dividir a tela em duas realidades, uma mostrando a verdade grosseira, e a outra as expectativas do personagem.

A honestidade charmosa faz com que a mensagem seja recebida sem o baque do confronto. Com a criatividade da narrativa e os dois personagens incrivelmente bem caracterizados e atuados, escolhi 500 Days of Summer para O Baú dessa semana por, apesar de atual, já ter se tornado um clássico alternativo do romance e da cultura popular, repleto de referências do cenário musical e cinematográfico independente e não se esquecendo de manter a história sempre firme.

To die by your side is such a heavenly way to die…




quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O Baú: Darren Aronofsky

Última quarta-feira do mês, n’O Baú, que será sempre dedicada a nome do cinema, seja de um diretor, ator, atriz, roteirista, etc.


Darren Aronofsky, diretor, produtor e roteirista



FILMOGRAFIA COMPLETA:
Pi – 1998
Réquiem para um Sonho (Requiem for a Dream) – 2000
A Fonte da Vida (The Fountain) – 2006
O Lutador (The Wrestler) – 2008
Cisne Negro (Black Swan) – 2010

Darren Aronofsky, nascido em 1969, é um dos diretores da atualidade que alcançou o título de autor, mesmo com uma filmografia pequena. Viajando por histórias diferentes e sempre as transmitindo através de um estilo único, Aronofsky reflete a loucura do ser humano criando personagens sempre perturbados, encaixados em roteiros originais.

Seu primeiro filme foi Pi, uma estréia incomum para qualquer um que pretenda se firmar na carreira cinematográfica. Visualmente poluído e perturbador, é um filme cujo intuito é deixar o espectador desconfortável, tal como o personagem Max, um matemático à procura de um padrão na bolsa de valores. Pi é considerado um ensaio para seu segundo filme, Requiem for a Dream, que rendeu uma indicação ao Oscar para Ellen Burstyn, assustadora no papel. A montagem frenética do uso das drogas e dos remédios, da interferência do externo ao interno, da agitação de uma mente levada à loucura, é agora mostrada com uma freqüência muito maior, nessa história sobre pessoas lidando com seus vícios. Tudo arquitetado do começo ao fim para jogar o espectador ao caos da vida daqueles personagens. É impossível sair de um filme de Aronofsky sem algumas perdas de fôlego.


Seu terceiro trabalho não comparável a nenhum outro de sua filmografia. The Fountain, um dos maiores divisores de águas da década, teve duas sessões no Festival de Veneza; a primeira foi vaiada, a segunda recebeu aplausos que duraram 10 minutos. Esse é o efeito intencionado, e se dá pelo fato de The Fountain tocar em pontos primários da existência humana: a origem e o destino de tudo no universo, e como esses dois pontos são primordiais comparados a tudo que vem no meio, ou seja, a nossa percepção de “vida” e, conseqüentemente, de “morte”. As interpretações são variadas, e a sensibilidade da história (para os que entenderem as nuances) pode ser assustadora para aqueles que têm medo de serem confrontados com suas próprias existências universais.


Em seguida, vieram dois filmes que, assim como Pi e Requiem for a Dream, se complementam em linguagem narrativa: The Wrestler, sobre um lutador de ringue vendo sua vida pessoal entrar em colapso (talvez o trabalho mais ameno e “pé no chão” do diretor, indicando Mickey Rourke à Melhor Ator e vencendo de Melhor Atriz para Marisa Tomei), e o filme que é considerado por muitos sua obra-prima, Black Swan, indicado ao Oscar de Melhor Filme, Diretor, Fotografia e ganhando a estatueta de Melhor Atriz para Natalie Portman, fantástica no papel, sobre uma bailarina que, buscando a perfeição e tentando conhecer melhor seu lado negro, se torna uma máquina de paranóia e alucinações. Ambos os filmes se tratam de pessoas tão obcecadas pelo que fazem, que acabam se esquecendo do que são e se perdem no emaranhado do cotidiano, colhendo infelicidades em suas vidas pessoais (e no caso de Black Swan, a perda da sanidade mental também). The Wrestler conta com uma realidade unidimensional e sem maiores confrontos com o que é real, apenas o drama pessoal do protagonista e suas tentativas de remendá-los. Já o outro mostra uma personagem que se perde no desastre que é uma vida obsessiva e acaba não sabendo mais diferenciar o que é real para a sociedade, o que é real para ela, e o que não é real para nenhum dos dois.


Trabalhos minuciosos que mexem com a “anatomia mental” e te levam a pensar sobre o que é uma impressão. Aquilo é real, ou é uma projeção de uma idéia minha? Ou pior, a projeção de uma idéia de outra pessoa? Por saber trabalhar com maestria em cima disso, escolhi falar sobre Darren Aronofsky por ele acentuar cada vez mais o meu gosto por filmes fortes, intensos e que dissequem o que o ser humano tem de mais insano. Nesse quesito, atualmente não há linguagem melhor que a dele. Seja por distúrbios causados por remédios ou manias, como em Pi e Requiem for a Dream, ou pela loucura e obstinação que brotam de dentro de nós mesmos, como em The Wrestler ou Black Swan, ou até mesmo por um filme que mexa com nossos princípios das forças mais primordiais do cosmo, como em The Fountain, Aronofsky sabe mexer com a gente, e nos influenciar positiva ou negativamente. Depende de como você se posiciona sobre os assuntos discutidos. Mas afinal, o que define um bom contador de histórias não é isso? Saber mexer com quem as ouve? No fim, causar impacto é o ponto principal.

Seu próximo filme será uma reconstrução da história da Arca de Noé, além de dirigir um episódio-piloto para uma série nova da HBO. Julgando por sua filmografia até agora, é de se esperar que sejam novos trabalhos tensos, como sempre, e do jeito que aprendemos a amar com ele. Resume-se a isso: Aronofsky nos ensinou a amar uma nova categoria no transtorno humano, uma que é igualmente pesada, mas com tons absolutamente novos.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O Baú: Vicky Cristina Barcelona

Filme: Vicky Cristina Barcelona, 2008
Direção: Woody Allen
Elenco: Scarlett Johansson, Javier Bardem, Penélope Cruz, Rebecca Hall




O ser humano é uma variável. Passa a vida toda se modificando, e na maioria das vezes, intencionalmente. Todos buscam um significado para suas vidas, algo que os façam se sentir pessoas melhores. E não há melhor maneira de se expressar do que a arte. Mas e quando até a arte falha? Tudo que você faz lhe parece uma sucessão de fracassos, nada te agradou, tudo ficou desgastado? Em outras palavras, e se tudo ao seu redor está te deixando cada vez mais insatisfeito? O não-conformismo é o elemento-chave de Vicky Cristina Barcelona, uma história simples com repercussões complicadas, e um dos filmes mais identificáveis já feitos. Afinal, é recorrente o homem passar pelas descrições acima. A INSATISFAÇÃO CRÔNICA.

Duas amigas decidem passar as férias em Barcelona. Enquanto descansam de suas vidas agitadas, tentam procurar por algum elemento que falta em suas vidas; Cristina (Scarlett Johansson, de Lost in Translation) e Vicky (Rebecca Hall, de The Awakening), encontraram a amizade no meio de um oceano de antíteses. Cristina não sabe o que quer da vida, só o que não quer: passar a vida sem encontrar o que quer. Uma artista inconstante que já investiu em todos os meios de expressão e não se encontrou em nenhum deles, com mente aberta e disposição a mergulhar em tudo que for novo e excitante. Já Vicky é uma mulher segura (pelo menos, acha que é), com uma vida inteira planejada, sem o risco de correr riscos e de encontrar caminhos novos por aí. Até ambas se depararem com Juan Antonio (Javier Bardem, de No Country for Old Men), um pintor boêmio e apreciador da vida que dá novas perspectivas às duas amigas. Completando o ciclo, acabam se envolvendo na montanha-russa que é María Elena (Penélope Cruz, de Volver, vencedora do Oscar pelo papel em discussão), ex mulher de Juan Antonio, depressiva, louca e instável. Em meio à arte impressionante de Barcelona, as tentativas e erros dos personagens vão se cruzando, abrindo novas portas e fechando várias outras.

A arte pela arte, o artista pelo artista. Realizar suas obras sem qualquer outro fim além daquele que é o de se expressar, comunicar, dividir sua alma. A necessidade da afirmação existe em todos os meios possíveis, se não para mostrar para os outros tudo o que se passa em seu coração, mas sim para você mesmo entender melhor quem é. É o que esse filme apresenta, e é o que o diretor Woody Allen faz. Quem nunca ouviu qualquer diálogo de algum filme dele e sentiu lá no fundo que aquilo era a mais pura opinião do diretor sobre determinado assunto? Analisando o roteiro e seus diálogos, percebe-se que a insegurança sobre uma investida criativa existe em todo artista, e reflete nas decisões que tomam em todas as áreas de suas vidas. Mexer com a arte exige uma sensibilidade que acaba aflorando em todo o resto. E não se conformar com nada é superficialmente desapontador, mas profundamente uma fonte de renovação constante; permite visitas a si mesmo, mudanças de opinião, olhares recém-nascidos, inspirações inimagináveis...

O filme também explora o que é o conflito que certos princípios geram quando colocados a prova, sejam eles de natureza amorosa, afetiva, sexual, etc. Uma pessoa se considera liberal, e criativa, e especial... mas até que ponto? E quando ela encontra pessoas com todas essas características, a níveis muito maiores e mais amplos? Ela realmente era assim, ou queria se convencer de que era? Como querer jorrar sua personalidade em cima de algum movimento artístico, se você não sabe se ao menos tem uma personalidade?

É aí que mora a identificação com o filme, o que me fez assistir a Vicky Cristina Barcelona e perceber que parecia que havia sido feito para mim. A personagem Cristina é a personificação de nossos medos e inseguranças, de nossas expectativas e perspectivas, do olhar e da busca do artista como profissional e pessoa. Há um trecho onde ela expressa seus pensamentos, quando questionada se tocava música: “Eu tenho que aceitar o fato de que não sou talentosa. Eu sei apreciar arte e amo música, mas... É triste, na verdade, porque eu sinto que tenho muito a expressar, mas não tenho o talento”. Foi como um tiro ouvir, com tanta clareza e objetividade, tudo o que você sempre pensou de si mesmo e nunca conseguiu definir exatamente. A insegurança, e a tentativa de quebrá-la com alguma coisa que possa ser mais forte, e a noção de que, no fim de tudo, vai depender de você mesmo saber escolher qual a melhor maneira de encontrar o que procura. E sempre tendo em mente que, quando algo falhar, a possibilidade da escolha estará sempre ali, permitindo que você se engaje em coisas novas.

A composição da idéia do enredo se posiciona ao lado da demonstração interminável da arte catalã. Obras de grandes nomes como Gaudí e Miró fazem uma alusão de como estão sendo apreciadas por personagens que são pequenos em relação àquilo, mas com possibilidades infinitas de chegar perto e fazer parte daquele mundo, se é que aquele mundo foi feito para eles.

A direção é simples e linear; a beleza está no roteiro, como em todos os filmes de Allen, que se utiliza das palavras com maestria. O elenco inteiro atua fazendo jus a tudo o que o filme representa, mas existe uma “menção honrosa” a ser feita: Penélope Cruz, que entrega, na minha mais sincera opinião, a melhor atuação feminina que eu já vi em um filme. Sem contar que sua personagem, variante dimensional, é fascinante em todos os trejeitos e falas e expressões e atitudes possíveis. Oscila entre o humor e o drama, a melancolia e a raiva. Uma pintora de talento beirando a genialidade, que dominaria o universo artístico europeu se não fosse pelos surtos de loucura, geralmente acionados por Juan Antonio, e que encontram uma amenização e equilíbrio em Cristina.

Com a mensagem final de que as pessoas só mudam se realmente querem mudar – ou se pelo menos estão no momento apropriado de isso acontecer – Vicky Cristina Barcelona é a obra-prima contemporânea sobre a revolução sexual, a descoberta artística, e o despertar pessoal. Um filme feito também para o público poder se encontrar nele, se necessário. Eu, pelo menos, sei que me encontrei.




quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O Baú: American Beauty

Filme: Beleza Americana (American Beauty), 1999
Direção: Sam Mendes
Elenco: Kevin Spacey, Annette Bening, Chris Cooper, Thora Birch, Mena Suvari, Wes Bentley





Qualquer reflexão que eu possa esboçar aqui será puramente pessoal. Afinal, a seção O Baú é meu coração sendo aberto com filmes que significaram muito para mim; o que eles têm de bom, de importante, de especial, uma análise que vai muito além da técnica.

Para iniciar O Baú, escreverei sobre o filme mais especial e incrível que já assisti; American Beauty, vencedor do Oscar de Melhor Filme, Diretor, Roteiro e Ator em 2000, dirigido pelo grande “filósofo cinematográfico” Sam Mendes, e escrito por Alan Ball.

Qual a definição de beleza? Um homem de feições exuberantes, uma mulher carinhosa e solidária, uma flor nascendo no meio da rua, ou um animal morto no asfalto, uma pessoa violenta ou alguma coisa leve sendo levada pelo ar. Tudo, e nada. Basta abrirmos nossa mente e entender que tudo possui uma unicidade, tudo existe e é pleno, e tudo tem o seu papel a desenrolar no universo. Se tivermos isso sempre em mente, estamos aptos a enxergar a beleza além das obviedades. Não apenas a beleza escancarada e visível, mas sim a das entrelinhas, a pequena e quase insignificante, mas de valor igual às grandiosas. É um tipo de visão necessária para a verdadeira apreciação do mundo ao seu redor e melhor compreensão do ser humano e das maneiras que o universo age sobre eles. É o entendimento da vida em total plenitude.

Eu não sei se tenho essa visão. Creio que ninguém sabe ao certo se a tem. Mas eu, desde criança, procuro entender melhor o que é enxergar as coisas, qual o valor delas, e o que elas estão fazendo ali, naquele lugar e naquela hora, apenas... existindo. E é exatamente por isso que, ao ver American Beauty pela primeira vez, soube instantaneamente que aquele era o filme da minha vida, e nunca nenhum outro tiraria esse posto. Pois Mendes e Ball souberam colocar no quadro várias das vertentes existentes em APRECIAR O MUNDO AO SEU REDOR, e que o conceito de beleza das pessoas varia, porque as pessoas se variam entre si.

O brilhante Kevin Spacey (de 21, vencedor do Oscar pelo papel em discussão) é Lester Burnham, um homem comum, numa vizinhança comum, com uma família comum, e que vê aos poucos sua vida definhar em meio à rotina ordinária de tudo ao seu redor. Ele não possui mais o brilho de sua juventude feliz. Sua esposa Carolyn (a mais brilhante ainda Annette Bening, de The Kids Are All Right, indicada ao Oscar), não tem mais paixão alguma, se tornou frígida e amarga, e se perde em superficialidades de uma dona-de-casa dos subúrbios enquanto tenta passar a imagem da família perfeita. A filha Jane (Thora Birch, de Hocus Pocus) é uma jovem revoltada que se fecha para o mundo e faz o possível para odiar alguma coisa. A “família feliz” janta à luz de velas, cumprimenta os vizinhos sorridente, e mantém o jardim intacto, tudo como fachada para disfarçar suas vidas miseráveis que foram sugadas pelo buraco negro do ordinário. Completando o elenco, Mena Suvari (de American Pie) é uma jovem promíscua e que se considera perfeita, com o medo obsessivo de se tornar feia e comum. Wes Bentley (de Ghost Rider) é o vizinho ao lado, que possui a visão apta ao belo, e Chris Cooper (vencedor do Oscar por Adaptation) é seu pai militar violento, exigente e preconceituoso. O filme retrata a jornada desses personagens em busca de algo que os faça se sentirem vivos novamente. Traições, empregos novos e relacionamentos incomuns são os fatores que os levam a descobrirem coisas novas sobre si mesmos, e de uns aos outros.

Situações descontraídas servem para contar essa história de intensidade ímpar sobre a perda do brilho da vida e a tentativa de retomá-lo. O roteiro é repleto de diálogos inteligentes, a direção é das mais geniais e criativas, o elenco é inteiro composto de atores incríveis. Em outras palavras, é o filme perfeito.

Para o melhor entendimento da essência de American Beauty, eis uma fala do filme, de quando o personagem Ricky (Bentley) leva Jane ao seu quarto para mostrar “a coisa mais linda que ele já filmou”. Ele então coloca uma fita com uma gravação de uma sacola plástica voando.

“Era um daqueles dias quando se está a um minuto de nevar, e há uma eletricidade que você quase pode escutar. E esse saco estava dançando comigo. Como uma criança implorando para brincar com ela. Por quinze minutos. Esse foi o dia que percebi que existe uma vida inteira por trás das coisas, e uma força incrivelmente benevolente que queria que eu soubesse que não há motivo para ter medo, nunca. O vídeo é pobre, eu sei. Mas me ajuda a lembrar... Eu preciso lembrar... Às vezes, há tanta beleza no mundo, que eu sinto que não vou agüentar, e meu coração vai apenas desmoronar.”

Original: “It was one of those days when it's a minute away from snowing and there's this electricity in the air, you can almost hear it. Right? And this bag was just dancing with me. Like a little kid begging me to play with it. For fifteen minutes. That's the day I realized that there was this entire life behind things, and this incredibly benevolent force that wanted me to know there was no reason to be afraid, ever. Video's a poor excuse, I know. But it helps me remember... I need to remember... Sometimes there's so much beauty in the world, I feel like I can't take it, and my heart is just going to cave in.”

É o trecho que define o filme, e talvez, minha vida. Essa é a mensagem final de American Beauty. O mundo está repleto de coisas de beleza imensurável, mas o homem não está ainda preparado para vê-las dessa maneira. Quando se souber aproveitar a vida plenamente, poderá se deparar com um saco plástico no meio da rua e entender que ele é lindo, que ele é único, que é repleto de uma energia maior por trás dele que o movimenta, que o é, que o permite ser. É a palavra final em VIVER, que é, afinal, o que todos nós precisamos aprender.